Economia
Economia

Mediante a tantos escândalos políticos de corrupção sendo revelados, inclusive envolvendo o atual presidente da República, Michel Temer, a dúvida que fica é: por que a população não está saindo às ruas e protestando? Como fez muito em 2015 e 2016 contra a ex-presidente impichada Dilma Rousseff? Essa é a pergunta que muitos dizem ser a de um milhão de dólares no momento. Mas a resposta, na verdade, é muito simples: “É a economia, estúpido!”.

A célebre frase de James Carville ficou famosa durante a eleição de 1992, nos Estados Unidos. Um ano antes, o então presidente norte-americano, George Bush, conseguiu resgatar a autoestima dos americanos ao vencer a Guerra do Golfo. Após a dolorosa derrota no Vietnã, e, assim, se tornou favorito nas eleições do ano subsequente contra Bill Clinton, o até então desconhecido governador do Arkansas. Isso pelo menos até James Carville entrar em cena. Carville era o marqueteiro de Clinton e apostou que Bush não era invencível com o país em recessão, cunhando assim a frase que virou case de marketing eleitoral: “É a economia, estúpido!”.

Essa frase sempre será atual e pode facilmente explicar a atual situação do Brasil. Quando uma multidão invadiu as ruas em março de 2016, com mais de 3 milhões de pessoas em todos os estados gritando pela saída da ex-presidente Dilma Rousseff. O Brasil sofria uma grave recessão, com todos os indicadores econômicos desajustados.

O que você verá neste artigo:

IPCA

Nosso país fechou 2015 com um IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo – que representa a inflação oficial do Brasil) de 10,67%, maior nível desde 2015. Em março de 2016, quando a maior manifestação ocorreu, o índice estava em 9,39% em 12 meses. Contudo, a meta é 4,5% ao ano, com uma banda de dois pontos percentuais para cima ou para baixo. Desde o início do primeiro mandato de Dilma que a inflação estava acima do centro da meta e, praticamente todo o período, acima até mesmo do teto da meta.

A perda do controle da inflação foi fruto de uma imensa falta de responsabilidade na condução da política monetária, com o governo intervindo nas decisões de juros do Copom (Comitê de Política Monetária) e tirando a autonomia do Banco Central. Em setembro de 2011, por ordens da ex-presidente, o Copom iniciou um ciclo de afrouxamento monetário que levou a Taxa Selic de 12,5% ao ano para 7,25%, sua menor taxa histórica. No entanto, isso ocorreu bem em um momento no qual a inflação já estava acima do teto da meta, a 7,23% em 12 meses. Por questão puramente eleitoral, visto que Dilma havia prometido em campanha jogar o juros para baixo, como se isso fosse alçada do poder executivo e não da autarquia monetária.

Levando em conta que a única função da Taxa Selic é controlar a inflação, obviamente que a sua derrocada faria com que a inflação saísse de controle. Sendo assim, em abril de 2013, o Banco Central se viu obrigado a voltar a elevar o juros. Iniciando um ciclo de aperto monetário emergencial. Em julho de 2015, após mais de 2 anos de aperto monetário, a taxa já estava num nível muito maior do que quando Dilma assumiu – 14,25% ao ano.

PIB

Assim, chegamos a março de 2016 com uma grave recessão, com o PIB tendo recuado 3,77% no ano de 2015; desemprego em 8,5%; Selic a 14,25%; IPCA em 10,67%; déficit primário de R$ 114,985 bilhões; a maior empresa do país, a Petrobras, quebrada e afundada em escândalos de corrupção; e muitas outras coisas assustadoras.

Já atualmente, quase 1 ano após o impeachment de Dilma Rousseff, o cenário já é completamente diferente. No primeiro trimestre de 2017, o PIB cresceu 1%, após 8 quedas trimestrais seguidas. A Taxa Selic está em um novo ciclo de afrouxamento. Mas, dessa vez, com a inflação sob controle. O juros está em 9,25% ao ano, com projeções de chegar a algo entre 7,5% e 8% até o fim do ano. Por outro lado, nosso IPCA está em inacreditáveis 2,71% em 12 meses. Beirando o piso da meta, menor nível desde 1999. O desemprego, o cenário fiscal e previdenciário continuam críticos, mas com perspectivas de melhora e reformas em curso.

Será que é tão difícil assim perceber porque em março de 2016 a população saiu às ruas e hoje ninguém está levantando da cadeira e nem se esgoelando para pedir a saída de Michel Temer? Se a economia está indo bem, as pessoas não se revoltam. No entanto, se o preço de tudo está mais caro a cada dia que passa, com a economia encolhendo e faltando emprego. E afundadas em dívidas, a busca pelo crédito se torna impraticável, com a taxa de juros cada vez mais alta. A bola de neve financeira que se forma causa revolta e a situação sai de controle.

Considerações finais

Claro que o Michel Temer não é o presidente dos sonhos de ninguém, mas é um fato que ele montou uma equipe econômica espetacular e que o Henrique Meirelles está fazendo um ótimo trabalho como Ministro da Fazenda. E é por isso, pela economia, que a população está à vontade com o Temer. Afinal, não faz sentido tira-lo da presidência há um ano da eleição e ainda mais sem ter quem colocar no lugar. Com a saída de Temer, Rodrigo Maia, tão ou mais corrupto que o atual presidente, assume o poder interinamente, para depois termos uma eleição indireta, que seria uma total incógnita. Enquanto tudo isso ocorre, não sabemos quem assumiria a economia e o país ficaria jogado às traças novamente.

Por isso que Carville tem razão: “É a economia, estúpido”. Então não vamos mexer no que está indo bem. E, no ano que vem, quando tivermos uma nova oportunidade de colocar alguém decente no poder, não podemos botar tudo a perder novamente. Isso, claro, se tivermos alguma opção.