Pessoa olhando para o mar, letras em chinês, referência a China

Na semana passada, a China abalou os mercados do mundo inteiro ao suspender, por duas vezes, seus pregões nas bolsas de Xangai e Shenzhen. Na segunda-feira (04), o pregão havia sido o mais curto de toda a história do país, ao fechar 92 minutos antes do habitual, no entanto, na quinta-feira (07) a situação foi ainda mais grave. As negociações foram suspensas 30 minutos logo após a abertura.

No primeiro circuit breaker, o índice geral de Xangai caiu 7,3%, enquanto o Shenzhen Composite perdeu 8,3%. No segundo, as bolsas abriram com quedas de 1,94% em Xangai e 2,57% em Shenzhen. Elas suspenderam automaticamente o pregão quando a queda superou os 5%. Após uma paralisação de 15 minutos, a sessão foi retomada, mas acabou definitivamente suspensa quando a perda superou 7%.

China: Opinião dos analistas

A maioria dos analistas acreditam que os dois circuit breakers indicam uma grande preocupação em relação à China. Afinal, para eles, foram causados pela forte desvalorização do preço do petróleo e a situação geopolítica da região. Por outro lado, há quem diga que eles representam nada mais nada menos do que uma política econômica muito bem feita. Isso para priorizar o consumo interno e escoar sua enorme produção, que é a opinião de Roberto Dumas Damas, mestre em economia chinesa pela Universidade de Fudan, na China, e a maior referência do país no assunto. Quem está certo? A China representa ou não uma preocupação?

A verdade é que a segunda está 100% correta, mas a primeira também tem o seu lado de verdade. A situação da China realmente é proposital e isso fica muito claro para qualquer um que analisar as últimas medidas do governo de Xi Jinping e de seu primeiro ministro Li Kekiang. Todas focadas na desvalorização do yuan, na diminuição das atividades das bolsas de valores e na redução do crescimento do PIB. No entanto, isso, apesar de ser bom pra China, representa sim uma preocupação, principalmente para o Brasil, outros emergentes e até para o futuro da própria China.

Contexto histórico da China

Para entender o presente, é importante analisar o passado. Desde 1978, com as reformas liberais de Deng Xiaoping, a China vem crescendo na casa dos dois dígitos. Esse modelo vem dando sinais de esgotamento desde 2008, quando começaram os temores de um hard landing, que foi evitado por medidas agressivas e certeiras do governo, que transformaram o hard no soft landing que está ocorrendo agora.

No entanto, essas providências trouxeram consequências e em 2011 a inflação começou a ser pressionada, se aproximando de 6% ao ano e demandando assim medidas de aperto monetário, com as reservas compulsórias dos bancos subindo para mais de 20% e a taxa de juros entrando em forte trajetória de alta. A decisão foi eficaz e limpou excessos sem prejudicar muito o crescimento, mas a administração de uma fase de ajuste é sempre dolorosa.

A revolução industrial chinesa dos últimos 15 anos foi tardia, mas permitiu um verdadeiro choque de produtividade na economia, com 200 milhões de chineses indo do campo para as cidades, trazendo assim abertura econômica e ajustes pró-mercado, por meio da entrada na OMC.

No entanto, 670 milhões ainda permanecem no campo.  O governo não parece estar mais se “coçando” para terminar esse caminho de transformação econômica. Principalmente se levarmos em conta que o país ainda conta com um regime político opressor. Isso prejudica diversos setores. O da educação, por exemplo, que apesar de receber bastante investimento, tem o seu avanço intelectual prejudicado pela falta de liberdade. Além disso, o excesso de burocracia, a corrupção e a concentração de crédito nos bancos estatais, também provenientes desse estatismo exacerbado, atrapalham o progresso, pois culminam em má alocação de recursos, criação de cidades fantasmas e até bolhas imobiliárias.

 

Pois é, é nítido de que o “problema” da China – seja ele positivo ou negativo, proposital ou sem querer – é muito mais complexo do que se imagina. Foram muitas as transformações e mudanças nos últimos 40 anos. Agora o mundo irá pagar para que eles coloquem tudo nos eixos. Afinal, foram erros no meio de todos esses processos que fizeram eles terem que tomar medidas drásticas agora para aumentar o consumo doméstico em relação ao PIB. Mas a culpa não foi só deles, mas sim, dos EUA também.

Neste momento, é extremamente vital que o PIB cresça menos e o consumo aumente. Afinal, é preciso compensar a queda das exportações, que vêm ocorrendo desde 2008, quando estourou a crise nos Estados Unidos e os americanos pararam de comprar todo o excedente da China. O Brasil e outros países da América Latina tentaram tomar o lugar do maior PIB do mundo na compra do excedente chinês, mas não conseguiram chegar nem perto do que os EUA assumiam.

Considerações Finais

Sendo assim, para que ficar produzindo para um mundo sem demanda? Então não existe crise de consumo, pois a China produz muito mais do que consome e ainda precisa de alguém para comprar o restante. Mas, se não tem quem comprar, não tem porque produzir… E produzindo menos, o PIB cresce menos. Simples, mas não indolor.

É um fato e é proposital: a China não irá mais crescer 10%, 11%, 12% ao ano. Bom para ela a curto e médio prazo, levando em conta o que foi escrito anteriormente, mas nada bom para o resto do mundo. Em especial países da América Latina, como Brasil, Chile, Peru, México e Colômbia. Estes são grandes exportadores de minério de ferro, platina, cobre e ouro. Afinal, se a China quer investir menos, irá comprar menos também e, com menos demanda, o preço cai.

Ruim para nós, que já estamos em uma situação desesperadora, por conta de anos de heterodoxia e má condução na política econômica. Agora com a China, o esfriamento do impeachment e a entrada de Nelson Barbosa na Fazenda, tudo só tende a piorar por aqui. Salve-se quem puder.