Você comprou um título do Tesouro Direto que promete pagar uma taxa fixa até o vencimento. Meses depois, abre o extrato e vê que o valor está menor do que investiu. Não houve erro nem prejuízo realizado: você acabou de encontrar a marcação a mercado. Entender esse mecanismo é o que separa quem se assusta de quem aproveita.
Marcação a mercado é a atualização diária do preço de um título de renda fixa conforme as taxas de juros do mercado. Se os juros sobem, o preço dos títulos já emitidos cai; se caem, o preço sobe. Essa oscilação só afeta você de fato se vender antes do vencimento — quem carrega até o fim recebe exatamente a taxa contratada.
Principais pontos
- Marcação a mercado é o preço pelo qual o título seria negociado hoje, não o seu rendimento contratado.
- Juros do mercado subindo derrubam o preço dos títulos prefixados e IPCA+ já emitidos.
- Levando até o vencimento, você recebe a taxa acordada na compra, independentemente das oscilações.
- O Tesouro Selic quase não oscila, porque acompanha a taxa básica no dia a dia.
- Vender na hora errada realiza prejuízo; vender na hora certa antecipa ganho.
O que é marcação a mercado
Marcação a mercado é a atualização diária do valor de um ativo pelo preço que ele valeria caso fosse negociado naquele momento. No Tesouro Direto, isso significa que o seu título tem dois valores possíveis: o que ele pagará no vencimento, definido na compra, e o que alguém pagaria por ele hoje.
Essa segunda cifra é a que aparece no extrato e é a que oscila. Ela existe porque o Tesouro Nacional garante recompra diária dos títulos — ou seja, você pode vender antes do prazo. E para haver recompra, precisa haver um preço de mercado atualizado.
A relação inversa entre juros e preço
A lógica central é a seguinte: preço de título e taxa de juros andam em direções opostas. Imagine que você comprou um prefixado pagando 12% ao ano. Se, meses depois, o Tesouro passa a emitir títulos semelhantes a 14% ao ano, o seu papel de 12% ficou menos atraente. Para alguém aceitar comprá-lo, o preço precisa cair até que o retorno dele se equipare aos 14% disponíveis no mercado.
O contrário também vale, e é a parte boa. Se as taxas caem para 10%, o seu título de 12% se torna especialmente atraente e vale mais do que você pagou. Nesse caso, a marcação a mercado mostra ganho acima do previsto — e vender antes do vencimento pode ser vantajoso.
Quais títulos oscilam mais
Nem todo título reage igual. O Tesouro Prefixado é o mais sensível, porque toda a sua remuneração está travada em uma taxa fixa. O Tesouro IPCA+ também oscila, já que tem uma parcela de juro real fixo, embora a correção pela inflação amorteça parte do movimento.
O Tesouro Selic, por outro lado, praticamente não oscila. Como sua remuneração acompanha a taxa básica dia a dia, o preço se ajusta continuamente e não fica “desatualizado” em relação ao mercado. É por isso que ele é o título indicado para reserva de emergência: você pode resgatar a qualquer momento sem risco de encontrar o valor abaixo do aplicado.
Prazo importa: quanto mais longo, mais volátil
Entre dois títulos prefixados, o de vencimento mais distante oscila muito mais. A razão é intuitiva: quando os juros mudam, o desconto se aplica a um número maior de anos de fluxo futuro, ampliando o efeito no preço de hoje.
Na prática, um título com vencimento em 2029 pode variar poucos pontos percentuais com uma mudança de taxa, enquanto um de 2045 pode se mover de forma expressiva com o mesmo estímulo. Essa sensibilidade tem nome técnico — duration — e é o principal fator de risco de quem investe em renda fixa longa.
Só há perda se você vender
Este é o ponto que resolve o susto do extrato. A marcação a mercado é uma informação, não uma realização. Se você carregar o título até o vencimento, receberá exatamente o que foi contratado na compra: a taxa prefixada acordada, ou a inflação mais o juro real combinado.
Toda a oscilação intermediária vira irrelevante nesse cenário. O prejuízo só se torna real no momento em que você vende antecipadamente a um preço abaixo do que pagou. Por isso a regra de ouro: só compre prefixado ou IPCA+ com dinheiro que você pode deixar até o vencimento.
Como a marcação pode virar oportunidade
Investidores mais atentos usam o mecanismo de forma ativa. A estratégia consiste em comprar títulos longos quando as taxas estão altas e vendê-los antecipadamente se as taxas caírem de forma significativa, capturando o ganho de preço em lugar de esperar anos pelo vencimento.
Funciona, mas exige dois cuidados. Primeiro, o movimento pode não acontecer, ou levar mais tempo do que você imagina — e nesse caso você precisa poder esperar. Segundo, o imposto de renda é cobrado sobre o ganho na venda, com a tabela regressiva favorecendo quem permanece mais tempo. Acompanhar a trajetória da Selic e da inflação ajuda a entender em que ponto do ciclo você está.
O que você paga no Tesouro Direto
Vale conhecer o custo, porque ele afeta o resultado final. A B3 cobra taxa de custódia de 0,20% ao ano sobre o valor investido. Há isenção total para aplicações de até R$ 10 mil em Tesouro Selic por CPF — acima disso, a taxa incide apenas sobre o excedente.
Outra mudança relevante: a cobrança deixou de ser semestral e passou a ocorrer apenas em movimentações — resgate antecipado, vencimento do título ou pagamento de juros semestrais. Muitas corretoras zeraram a taxa de administração própria, então na maioria dos casos a custódia da B3 e o imposto de renda são os únicos custos.
Erros comuns de quem descobre a marcação
O erro mais frequente é vender no susto. Ver o valor abaixo do investido e resgatar por medo transforma uma oscilação contábil em prejuízo definitivo — exatamente o oposto do que a mecânica do título exige.
O segundo erro é comprar títulos longos com dinheiro de curto prazo, misturando objetivos. Se o dinheiro pode ser necessário em um ano, ele não pertence a um IPCA+ 2045. E o terceiro é ignorar o efeito do prazo: comprar o vencimento mais distante só porque a taxa oferecida é maior, sem considerar a volatilidade que vem embutida. Nossa calculadora de juros compostos ajuda a simular cenários antes de decidir.
Perguntas frequentes
O que é marcação a mercado no Tesouro Direto?
É a atualização diária do preço do título conforme as taxas de juros praticadas no mercado. Ela mostra por quanto o título seria negociado hoje, e não o rendimento que você contratou na compra.
Por que meu título está valendo menos do que investi?
Provavelmente porque as taxas de juros do mercado subiram desde a sua compra. Quando isso ocorre, títulos já emitidos com taxas menores passam a valer menos. É uma oscilação de preço, não perda de rendimento, e desaparece se você levar até o vencimento.
Posso perder dinheiro no Tesouro Direto?
Sim, se vender antecipadamente por um preço abaixo do que pagou. Levando o título até o vencimento, você recebe exatamente a taxa contratada na compra, independentemente das oscilações do período.
Qual título do Tesouro não sofre marcação a mercado?
O Tesouro Selic é o que praticamente não oscila, porque sua remuneração acompanha a taxa básica no dia a dia. Por isso é o mais indicado para reserva de emergência e objetivos de curto prazo.
Qual a taxa de custódia do Tesouro Direto?
A B3 cobra 0,20% ao ano, com isenção para até R$ 10 mil aplicados em Tesouro Selic por CPF. A cobrança ocorre nas movimentações — resgate, vencimento ou pagamento de juros — e não mais semestralmente.



