Microsoft e Meta divulgaram seus resultados após o fechamento do mercado americano nesta quarta-feira, no que virou o teste mais importante da temporada de balanços de tecnologia. E o número que o mercado foi checar primeiro não é lucro nem receita: é quanto cada uma vai gastar em infraestrutura de inteligência artificial.
A mudança de humor com a IA
Até pouco tempo, anúncio de investimento pesado em IA era recebido como sinal de liderança tecnológica e impulsionava as ações. Isso virou. Depois de a Alphabet revisar sua projeção de gastos de capital fortemente para cima, o mercado passou a tratar aumento de capex como risco — pressão sobre margens e sobre a geração de caixa livre.
A pergunta que os investidores fazem agora é direta: esse gasto está sendo puxado por demanda real e contratada, ou é uma corrida defensiva em que ninguém pode ficar para trás? A resposta define se a ação sobe ou cai depois do balanço.
Microsoft: Azure e um capex que assusta
A companhia reportou o quarto trimestre do seu ano fiscal 2026. As projeções do mercado apontavam receita em torno de US$ 87,7 bilhões e lucro por ação de US$ 4,24 — contra US$ 76,44 bilhões e US$ 3,65 no mesmo período do ano anterior.
Dois indicadores concentravam a atenção. O primeiro é o crescimento do Azure, a divisão de nuvem: o serviço vinha avançando cerca de 40% no trimestre anterior, com projeção de 39% a 40% em moeda constante. O segundo, e mais sensível, é o capex do ano fiscal 2027, projetado na casa de US$ 255 a US$ 260 bilhões — um salto de cerca de 35% sobre os US$ 190 bilhões comprometidos em 2026.
O contexto de mercado ajuda a entender a tensão: a ação da Microsoft acumulava queda superior a 19% em 2026, apesar de resultados operacionais robustos. É o preço que o mercado tem cobrado do ciclo de gastos.
Meta: receita forte, margem sob pressão
A Meta reportou o segundo trimestre de 2026. O consenso projetava receita em torno de US$ 60,2 bilhões, alta de aproximadamente 27% em 12 meses, impulsionada pelo negócio de publicidade — dentro da faixa de US$ 58 bilhões a US$ 61 bilhões que a própria companhia havia indicado. Para o lucro, a projeção girava em torno de US$ 7,13 a US$ 7,20 por ação.
O ponto crítico é o investimento. O mercado esperava capex de aproximadamente US$ 33,7 bilhões só no trimestre, praticamente o dobro do registrado um ano antes. E em abril a empresa já havia elevado a projeção anual de gastos de capital de US$ 115–135 bilhões para US$ 125–145 bilhões.
Ou seja: receita crescendo forte, mas com gasto de capital subindo mais rápido. É essa tesoura que aparece na margem e no fluxo de caixa livre — e que o mercado quer ver justificada.
Por que isso interessa a quem investe no Brasil
Três conexões diretas. A primeira é o índice: as gigantes de tecnologia têm peso enorme no S&P 500 e no Nasdaq, e uma reação forte nesses papéis move os mercados globais no dia seguinte — inclusive a bolsa brasileira, por contágio de humor.
A segunda é a cadeia de semicondutores: capex de IA se traduz em pedidos para fabricantes de chips e equipamentos, setor que vem concentrando volatilidade. A terceira é o acesso direto: investidores brasileiros com BDRs ou ações compradas no exterior sentem o resultado na própria carteira.
O que ler antes de reagir
Balanço de big tech tem um roteiro. O número reportado importa menos que o guidance — a projeção para os trimestres seguintes. Foi o guidance de capex, e não o lucro do trimestre, que gerou os movimentos mais violentos nesta temporada.
Vale também esperar a teleconferência. É nela que a administração explica se o gasto está atrelado a contratos firmados, qual a expectativa de retorno e em quanto tempo. Ação que cai 5% no after hours e sobe no dia seguinte após a explicação da diretoria é cena comum. Nosso guia de como ler um balanço traz o passo a passo, e o de EBITDA ajuda a entender por que depreciação de data centers vai pesar nos resultados dos próximos anos.
O que vem depois
A temporada de tecnologia continua com outras gigantes reportando na sequência, e o tema do capex de IA deve dominar as próximas semanas. No agregado, as maiores empresas do setor já comprometeram centenas de bilhões de dólares em infraestrutura para os próximos anos.
Para o investidor de longo prazo, a pergunta relevante não é o resultado de um trimestre, mas se esse ciclo de investimento vai gerar retorno acima do custo de capital. Essa resposta não sai em julho de 2026 — e é justamente por isso que o mercado está nervoso.
Os valores citados como projeções refletem o consenso de mercado antes da divulgação, não resultados confirmados. Conteúdo informativo, sem recomendação de investimento.
Perguntas frequentes
Quando Microsoft e Meta divulgaram os resultados?
As duas companhias reportaram após o fechamento do mercado americano em 29 de julho de 2026 — Microsoft referente ao quarto trimestre do ano fiscal 2026 e Meta ao segundo trimestre de 2026.
O que o mercado esperava da Microsoft?
Receita em torno de US$ 87,7 bilhões e lucro por ação de US$ 4,24, contra US$ 76,44 bilhões e US$ 3,65 um ano antes, com o Azure crescendo entre 39% e 40% em moeda constante.
Por que o capex virou o número mais importante?
Porque o mercado passou a tratar aumento de gastos com IA como risco de pressão sobre margens e fluxo de caixa livre, e não mais como sinal de liderança. A projeção de capex da Microsoft para o ano fiscal 2027 gira em torno de US$ 255 a US$ 260 bilhões, cerca de 35% acima de 2026.
E os números esperados da Meta?
Receita em torno de US$ 60,2 bilhões, alta de aproximadamente 27%, com lucro projetado entre US$ 7,13 e US$ 7,20 por ação. O capex do trimestre era estimado em cerca de US$ 33,7 bilhões, quase o dobro de um ano antes.
Como isso afeta o investidor brasileiro?
Por três vias: o peso dessas empresas nos índices americanos, que contagia o humor global e a bolsa brasileira; a cadeia de semicondutores, movimentada pelo capex de IA; e a exposição direta de quem tem BDRs ou ações no exterior.



