O salário que aparece na carteira não é o que cai na conta. Entre os dois há dois descontos obrigatórios — INSS e Imposto de Renda — e uma regra nova que zera o IR de quem ganha até R$ 5.000 por mês. Quem recebe R$ 6.000, por exemplo, leva para casa R$ 4.973,38.
Para chegar ao salário líquido em 2026, desconte primeiro o INSS, calculado por faixas progressivas de 7,5% a 14% com teto de contribuição de R$ 988,09. Sobre o que sobra, aplique a tabela do IRRF, considerando a dedução mais vantajosa entre o INSS e o desconto simplificado de R$ 607,20. Por último, subtraia o redutor da Lei 15.270/2025, que isenta integralmente quem ganha até R$ 5.000 e diminui gradualmente até zerar em R$ 7.350.
Principais pontos
- INSS 2026 tem quatro faixas progressivas: 7,5%, 9%, 12% e 14%, com desconto máximo de R$ 988,09.
- A base do IR é o salário menos a dedução mais vantajosa: INSS mais dependentes ou R$ 607,20 do desconto simplificado.
- Quem ganha até R$ 5.000 por mês não paga IR, por efeito do redutor de até R$ 312,89.
- O redutor diminui de forma gradual e chega a zero em R$ 7.350 de salário bruto.
- Salário de R$ 6.000 resulta em R$ 4.973,38 líquidos; de R$ 10.000, em R$ 7.442,36.
Os dois descontos que todo holerite tem
Independentemente do cargo ou do setor, dois descontos são obrigatórios no salário de quem trabalha com carteira assinada: a contribuição para o INSS e o Imposto de Renda Retido na Fonte, o IRRF. Todos os outros — vale-transporte, plano de saúde, sindicato, coparticipação — dependem do contrato.
A ordem importa e é fonte de confusão. O INSS é calculado sobre o salário bruto. O Imposto de Renda não: ele incide sobre o que sobra depois do INSS. Quem calcula o IR direto sobre o bruto sempre chega a um valor maior que o real.
Passo 1: o INSS é progressivo por faixa, não por salário
Este é o erro mais comum de todos. A alíquota de 14% não se aplica a quem ganha R$ 5.000 sobre os R$ 5.000. Cada faixa incide apenas sobre a parte do salário que cai dentro dela, como acontece no imposto de renda.
| Faixa salarial em 2026 | Alíquota sobre a parcela |
|---|---|
| Até R$ 1.621,00 | 7,5% |
| De R$ 1.621,01 a R$ 2.902,84 | 9,0% |
| De R$ 2.902,85 a R$ 4.354,27 | 12,0% |
| De R$ 4.354,28 a R$ 8.475,55 | 14,0% |
Num salário de R$ 5.000, a conta é: 7,5% sobre R$ 1.621,00, mais 9% sobre R$ 1.281,84, mais 12% sobre R$ 1.451,43, mais 14% sobre os R$ 645,73 que restam — total de R$ 501,52. Se fosse 14% sobre tudo, daria R$ 700. A diferença é de quase R$ 200 por mês.
O teto: acima de R$ 8.475,55 o desconto para de crescer
O INSS tem um limite. Somando as quatro faixas até o teto de R$ 8.475,55, o desconto máximo possível é de R$ 988,09 — e ele não sobe mais, independentemente do salário.
Quem ganha R$ 12.000 e quem ganha R$ 40.000 pagam exatamente os mesmos R$ 988,09 de INSS. Em contrapartida, também têm o mesmo benefício máximo do regime, o que explica por que a previdência complementar deixa de ser opcional em salários mais altos.
Passo 2: a base de cálculo do Imposto de Renda
Com o INSS descontado, define-se a base do IR. Aqui existe uma escolha, e o sistema aplica automaticamente a alternativa mais vantajosa para o trabalhador: descontar as deduções legais (o INSS pago mais R$ 189,59 por dependente) ou o desconto simplificado de R$ 607,20, que substitui todas as deduções.
A regra prática: quem tem INSS abaixo de R$ 607,20 e nenhum dependente se beneficia do simplificado. Como o INSS chega a R$ 607,20 por volta de um salário de R$ 5.600, o simplificado costuma valer para salários menores, e as deduções legais passam a valer acima disso.
Passo 3: a tabela do IRRF e a parcela a deduzir
Sobre a base, aplica-se a tabela mensal. A coluna “parcela a deduzir” existe justamente para que a alíquota não pegue o salário inteiro — ela devolve o excesso cobrado nas faixas mais baixas.
| Base de cálculo | Alíquota | Parcela a deduzir |
|---|---|---|
| Até R$ 2.428,80 | Isento | — |
| De R$ 2.428,81 a R$ 2.826,65 | 7,5% | R$ 182,16 |
| De R$ 2.826,66 a R$ 3.751,05 | 15,0% | R$ 394,16 |
| De R$ 3.751,06 a R$ 4.664,68 | 22,5% | R$ 675,49 |
| Acima de R$ 4.664,68 | 27,5% | R$ 908,73 |
Exemplo com salário de R$ 6.000: INSS de R$ 641,52, base de R$ 5.358,48, alíquota de 27,5% resulta em R$ 1.473,58, menos a parcela a deduzir de R$ 908,73, o que dá R$ 564,85 de imposto. Ainda falta um passo.
Passo 4: o redutor que isenta quem ganha até R$ 5.000
A mudança que entrou em vigor em 2026 não alterou a tabela acima: ela criou um redutor aplicado depois do imposto calculado. A fórmula é R$ 978,62 menos 0,133145 multiplicado pelo salário bruto, e o resultado é abatido do IRRF apurado. Explicamos o contexto em o que mudou na isenção do IR.
O desenho é deliberado. Num salário de R$ 5.000, o imposto calculado pela tabela dá exatamente R$ 312,89 — e o redutor também dá R$ 312,89, zerando a conta. Daí para cima o redutor encolhe, até chegar a zero em R$ 7.350. Acima disso, nenhum abatimento: no exemplo de R$ 6.000, o redutor de R$ 179,75 derruba o imposto de R$ 564,85 para R$ 385,10.
Cinco salários, do bruto ao líquido
Os valores abaixo consideram trabalhador sem dependentes e sem descontos facultativos como plano de saúde ou vale-transporte.
| Salário bruto | INSS | IRRF | Salário líquido |
|---|---|---|---|
| R$ 3.000,00 | R$ 248,61 | R$ 0,00 | R$ 2.751,39 |
| R$ 5.000,00 | R$ 501,52 | R$ 0,00 | R$ 4.498,48 |
| R$ 6.000,00 | R$ 641,52 | R$ 385,10 | R$ 4.973,38 |
| R$ 7.350,00 | R$ 830,51 | R$ 884,13 | R$ 5.635,36 |
| R$ 10.000,00 | R$ 988,09 | R$ 1.569,55 | R$ 7.442,36 |
Observe o trecho entre R$ 5.000 e R$ 7.350. Nessa faixa, cada real de aumento salarial vem acompanhado da perda de parte do redutor, então o líquido cresce mais devagar que o bruto. Não é armadilha — o líquido nunca cai —, mas é uma progressão bem menos generosa do que o aumento sugere.
Por que o líquido ainda não é o seu dinheiro disponível
O líquido do holerite é o ponto de partida do orçamento, não o fim. Sobre ele ainda incidem os gastos fixos, e é dele que precisa sair a poupança do mês. Métodos como o 50-30-20 trabalham sobre o líquido, nunca sobre o bruto.
Vale também lembrar do 13º salário, que tem tributação própria e separada, e das férias com o adicional de um terço. Para simular cenários com dependentes ou outros descontos, use a página de calculadoras.
Conteúdo informativo. Valores conforme as tabelas de INSS e IRRF vigentes em 2026 e a Lei 15.270/2025. Descontos específicos do seu contrato podem alterar o resultado. Consulte o setor de pessoal ou um contador para o seu caso.
Perguntas frequentes
Como calcular o salário líquido em 2026?
Desconte o INSS do salário bruto pelas faixas de 7,5% a 14%, aplique a tabela do IRRF sobre o que sobrou usando a dedução mais vantajosa, subtraia o redutor da Lei 15.270/2025 e retire do bruto os dois descontos.
Quem ganha até R$ 5.000 paga Imposto de Renda em 2026?
Não. O imposto calculado pela tabela nesse salário é de R$ 312,89 e o redutor também é de R$ 312,89, o que zera a cobrança. A isenção vale até R$ 5.000 de salário bruto mensal.
Qual é o desconto máximo do INSS em 2026?
R$ 988,09, correspondente ao teto de contribuição de R$ 8.475,55. Quem ganha acima do teto paga o mesmo valor, independentemente do salário.
Quanto sobra de um salário de R$ 6.000?
R$ 4.973,38 para quem não tem dependentes nem descontos facultativos, após R$ 641,52 de INSS e R$ 385,10 de Imposto de Renda.
O INSS de 14% incide sobre todo o salário?
Não. Cada alíquota incide apenas sobre a parcela do salário dentro da sua faixa. Num salário de R$ 5.000, o desconto é de R$ 501,52, e não os R$ 700 que 14% sobre o total sugeririam.



