O Banco Central reduziu nesta quinta-feira (24) a projeção do PIB de 2026 de 2,0% para 1,8% e estreou a de 2027 em 1,4%. No mesmo relatório, manteve a inflação de 2026 em 5,2% e elevou de 79% para 90% a chance de o IPCA fechar o ano acima do teto da meta. A economia esfria, mas não o bastante para o BC relaxar.
No Relatório de Política Monetária de 24 de setembro de 2026, o Banco Central cortou a projeção do PIB de 2026 de 2,0% para 1,8% e projetou 1,4% para 2027. A revisão veio da composição fraca do segundo trimestre e de indicadores iniciais do terceiro. A inflação projetada segue em 5,2% em 2026 e 3,2% no primeiro trimestre de 2028.
Principais pontos
- O consumo das famílias em 2026 foi revisado de 2,1% para 1,2%, a maior tesourada entre os componentes.
- A projeção do BC fica abaixo do Focus de 21 de setembro (1,88%) e da Fazenda (2,0%).
- O IPCA projetado é de 5,2% no fim de 2026, com 90% de chance de passar do teto de 4,5%.
- No horizonte relevante, o primeiro trimestre de 2028, a inflação projetada segue em 3,2%.
O que o BC revisou e por quê
O Relatório de Política Monetária (RPM) de setembro atribui o corte a dois fatores: os primeiros indicadores do terceiro trimestre, que sugerem atividade mais fraca que a prevista, e uma “composição menos favorável” do crescimento no segundo trimestre.
O segundo ponto é o mais revelador. O PIB do segundo trimestre cresceu 0,5% e até superou levemente o esperado, mas as surpresas positivas vieram de setores pouco sensíveis ao ciclo, como agropecuária e extração de petróleo. Já o consumo das famílias caiu 0,4%. O total veio bom; a parte que indica para onde a economia vai veio fraca.
Onde o corte aparece: consumo e setores cíclicos
A revisão não foi uniforme. A agropecuária subiu forte, com safra maior de milho e algodão, enquanto indústria e serviços encolheram. Os setores mais cíclicos, que respondem a juro e renda, caíram de 2,0% para 1,3%.
Na demanda, o consumo das famílias levou a maior tesourada. As importações saltaram, o que tira crescimento do PIB: parte da demanda passa a ser atendida por produto estrangeiro.
| Projeção para 2026 | RPM de junho | RPM de setembro |
|---|---|---|
| PIB | 2,0% | 1,8% |
| Agropecuária | 1,7% | 2,8% |
| Indústria | 2,3% | 1,5% |
| Serviços | 1,9% | 1,7% |
| Consumo das famílias | 2,1% | 1,2% |
| Investimento (FBCF) | 1,5% | 2,0% |
| Importações | 2,0% | 3,5% |
2027 estreia em 1,4%, com El Niño no radar
Para o ano que vem, o BC projeta agropecuária a 0,5%, indústria a 1,3% e serviços a 1,5%. O freio vem de juros ainda contracionistas, pouca capacidade ociosa e menor impulso fiscal e de crédito.
No agro, depois da safra recorde, o BC escreve que “os riscos climáticos são superiores aos usuais”, diante de um El Niño intenso. O consumo das famílias deve crescer 1,4%, contido pelo endividamento alto.
BC, mercado e governo: três números diferentes
Com 1,8%, o BC fica abaixo das outras duas referências. O Focus de 21 de setembro projeta 1,88% para 2026. A Fazenda, no Boletim Macrofiscal de terça-feira (22), cortou sua estimativa de 2,3% para 2,0%.
A distância maior está em 2027, e importa: a receita do Orçamento depende do crescimento projetado.
| Fonte | PIB 2026 | PIB 2027 |
|---|---|---|
| Banco Central (RPM, 24/09) | 1,8% | 1,4% |
| Focus (21/09) | 1,88% | 1,43% |
| Ministério da Fazenda (22/09) | 2,0% | 2,3% |
Por que o PIB menor não derruba a inflação projetada
A desaceleração parte de uma economia que ainda roda acima do potencial. O desemprego está no mínimo histórico, de 5,4% no trimestre até julho (com ajuste sazonal), e o uso da capacidade da indústria está em 82,9%, acima da média de cerca de 80%. O BC estima o hiato do produto, a distância entre o PIB efetivo e o potencial, em +0,4% no terceiro trimestre.
Por isso, o IPCA em 12 meses projetado sobe de 4,4% no terceiro trimestre para 5,2% no fim do ano e só cai a 3,9% no fim de 2027. No horizonte relevante, o primeiro trimestre de 2028, chega a 3,2%. A chance de estourar o teto é de 90% em 2026, 33% em 2027 e 16% em 2028.
O que o documento diz sobre a Selic
O RPM usa a trajetória de juros do Focus coletado antes do Copom de 15 e 16 de setembro: Selic de 13,75% no fim de 2026, 12,00% em 2027 e 10,50% em 2028. Com juro real neutro estimado em 5,00%, a política segue contracionista em todo o horizonte, ainda que cada vez menos.
O texto repete que a “magnitude total do ciclo de calibração será estabelecida à luz de novas informações”. Depois do fechamento do relatório, o Focus passou a ver Selic de 13,50% no fim do ano, um corte a mais que o usado pelo BC. A entrevista de Galípolo, marcada para as 11h, não está incorporada a este texto.
O que isso significa para você
Para a renda fixa, o recado é de juro alto por bastante tempo: mesmo com PIB mais fraco, a trajetória usada pelo BC mantém a Selic acima de 12% até o fim de 2027. Para quem tem dívida, o consumo revisado para 1,2% confirma o aperto que o orçamento já sente.
Na bolsa, a revisão tira fôlego de empresas ligadas ao consumo doméstico e favorece agro e petróleo, os únicos setores com projeção melhor. O que não se sabe é se o terceiro trimestre fraco é tropeço ou início de freada mais forte. O PIB desse período só sai daqui a mais de dois meses; até lá, os sinais virão de indicadores como o IBC-Br.
Conteúdo informativo, sem recomendação de investimento. Projeções do Banco Central, do mercado e do governo são condicionais a hipóteses e podem ser revisadas.
Perguntas frequentes
Qual a projeção do Banco Central para o PIB de 2026?
No Relatório de Política Monetária de 24 de setembro de 2026, o Banco Central projeta crescimento de 1,8% para o PIB de 2026, abaixo dos 2,0% estimados em junho.
Quanto o Banco Central espera que o PIB cresça em 2027?
A primeira estimativa do BC para 2027 é de 1,4%, com juros ainda contracionistas e risco climático ligado ao El Niño.
Por que o Banco Central reduziu a projeção do PIB?
Porque os indicadores iniciais do terceiro trimestre sugerem atividade mais fraca e porque o crescimento do segundo trimestre se concentrou em setores pouco cíclicos, com queda do consumo.
Qual a projeção de inflação do Banco Central para 2026?
O BC projeta IPCA de 5,2% no fim de 2026, acima do teto de 4,5%, com 90% de chance de estourar esse limite. Para o primeiro trimestre de 2028, projeta 3,2%.
A projeção do BC é menor que a do mercado?
Sim. O Focus de 21 de setembro projeta 1,88% para 2026 e 1,43% para 2027. O Ministério da Fazenda projeta 2,0% e 2,3%, acima das duas outras referências.



