A cada trimestre, o Banco Central publica um documento de dezenas de páginas em que mostra suas próprias projeções de inflação e de atividade — e não as do mercado. É o Relatório de Política Monetária, que substituiu o antigo Relatório Trimestral de Inflação. A edição de setembro de 2026 sai no dia 24.
O Relatório de Política Monetária é o documento trimestral em que o Banco Central do Brasil apresenta suas próprias projeções de inflação, crescimento e balanço de riscos, junto com os cenários e hipóteses usados pelo Copom. Substituiu o Relatório Trimestral de Inflação e é publicado em março, junho, setembro e dezembro. É a única fonte oficial das projeções do Banco Central — o Boletim Focus, com que costuma ser confundido, reúne projeções de instituições de mercado.
Principais pontos
- O relatório traz as projeções do próprio Banco Central, não as do mercado.
- É publicado quatro vezes por ano: março, junho, setembro e dezembro.
- Substituiu o antigo Relatório Trimestral de Inflação, criado no regime de metas.
- Apresenta cenários alternativos e as hipóteses de câmbio, juros e petróleo usadas.
- É o documento em que se lê o número que o Copom persegue no horizonte relevante.
O que é e para que serve
O relatório nasceu como peça de prestação de contas do regime de metas de inflação. A lógica é esta: se o Banco Central recebeu uma meta e tem autonomia para persegui-la, precisa explicar publicamente o que projeta, com quais hipóteses e por que acredita que sua política levará a inflação ao alvo.
Na prática, é o documento mais completo que o Banco Central produz. O comunicado do Copom cabe em uma página; a ata, em algumas. O relatório traz gráficos, modelos, cenários alternativos e análises setoriais — e é onde se encontra o raciocínio inteiro, não apenas a conclusão.
A diferença entre ele e o Boletim Focus
Essa confusão é frequente e vale desfazer com clareza, porque os dois documentos dizem coisas diferentes sobre o mesmo assunto.
O Focus é uma pesquisa semanal: o Banco Central coleta as projeções de mais de cem instituições financeiras e publica a mediana. Ele mede o que o mercado pensa. O Relatório de Política Monetária é trimestral e traz o que o Banco Central pensa, a partir dos seus próprios modelos. Quando os dois divergem, a divergência é informação: significa que a autoridade monetária e o mercado discordam sobre o futuro.
| Boletim Focus | Relatório de Política Monetária | |
|---|---|---|
| Periodicidade | Semanal, às segundas | Trimestral |
| De quem são as projeções | Instituições de mercado | Do próprio Banco Central |
| Formato | Tabela de medianas | Relatório com cenários e gráficos |
| Uso principal | Termômetro de expectativa | Base técnica da decisão de juros |
O que procurar quando ele sai
O item mais importante é a projeção de inflação no horizonte relevante — o prazo em que a política de juros de hoje faz efeito, hoje situado no primeiro trimestre de 2028. Se essa projeção estiver acima da meta de 3%, a mensagem implícita é que ainda falta aperto ou que não há espaço para afrouxar; se estiver abaixo, o contrário. O conceito está detalhado em por que o Copom mira a inflação de 2028.
O segundo item são as hipóteses. O relatório informa qual trajetória de Selic, qual câmbio e qual preço de petróleo foram usados nas contas. Isso permite avaliar a projeção com honestidade: um número bonito construído sobre hipótese otimista de câmbio vale menos que um número desconfortável construído sobre hipótese conservadora.
Os cenários alternativos
O Banco Central não apresenta uma projeção só. Ele costuma mostrar o cenário de referência e variações — o que aconteceria com a inflação se o câmbio fosse outro, se o petróleo subisse, se a Selic seguisse a trajetória do Focus em vez de permanecer constante.
Essa seção é a mais subestimada do documento e a mais útil para quem investe. Ela mostra a sensibilidade da inflação a cada variável, ou seja, quais choques o Banco Central considera mais perigosos. Um relatório que indica alta sensibilidade ao câmbio sinaliza que uma desvalorização do real teria resposta dura em juros.
Como o relatório conversa com a ata e o comunicado
Os três documentos formam um conjunto e devem ser lidos como tal. O comunicado sai no dia da decisão e diz o que foi decidido. A ata sai na terça seguinte e diz por que. O relatório sai semanas depois e mostra com base em quais números.
Quando os três se contradizem — um comunicado duro seguido de projeções confortáveis, por exemplo —, a contradição costuma ser o fato mais relevante do trimestre para o mercado de juros. Foi o tipo de leitura que se buscou quando o Copom deixou os próximos passos em aberto em setembro de 2026.
Serve para quem não é economista?
Serve, desde que a leitura seja seletiva. Ninguém precisa entender os modelos: o sumário executivo, no início, traz as projeções principais em linguagem acessível, e é dele que saem praticamente todas as manchetes.
Para quem tem dinheiro em renda fixa, o uso prático é direto. Se o Banco Central projeta inflação acima da meta no horizonte relevante, a chance de os juros caírem menos do que o mercado espera aumenta — o que favorece pós-fixados e prejudica quem travou prefixado. Se projeta inflação convergindo, o raciocínio se inverte. Compare cenários nas calculadoras e acompanhe os números em Selic hoje.
Por que a mudança de nome importa
O documento se chamava Relatório Trimestral de Inflação desde a criação do regime de metas, em 1999. A troca para Relatório de Política Monetária acompanhou uma reformulação de conteúdo e de linguagem, com foco em tornar o texto mais legível para fora do círculo técnico.
A mudança de nome também reflete uma mudança de ênfase: o documento não trata apenas de projetar inflação, mas de explicar a política monetária como um todo — juros, balanço de riscos, comunicação. Para o leitor, a consequência prática é que o material ficou mais acessível, sem perder densidade. Mais definições estão no glossário.
Conteúdo informativo, sem recomendação de investimento. Projeções de bancos centrais são condicionadas a hipóteses e não representam compromisso de resultado.
Perguntas frequentes
O que é o Relatório de Política Monetária?
É o documento trimestral em que o Banco Central apresenta suas próprias projeções de inflação e atividade, os cenários considerados e o balanço de riscos. Substituiu o antigo Relatório Trimestral de Inflação.
Qual a diferença entre o relatório e o Boletim Focus?
O Focus é semanal e reúne projeções de instituições de mercado, publicadas como mediana. O relatório é trimestral e traz as projeções do próprio Banco Central, geradas por seus modelos. Quando divergem, a diferença é informação relevante.
Quando o relatório é publicado?
Quatro vezes por ano — em março, junho, setembro e dezembro. A edição de setembro de 2026 está prevista para o dia 24.
O que é mais importante ler no relatório?
A projeção de inflação no horizonte relevante, hoje o primeiro trimestre de 2028, e as hipóteses usadas para chegar a ela: trajetória de Selic, câmbio e preço do petróleo. As hipóteses definem quanto a projeção vale.
O relatório muda a decisão de juros?
Não diretamente, porque sai depois da reunião. Mas ele mostra a base técnica que sustentou a decisão e ajuda a antecipar as próximas, ao revelar o que o Banco Central projeta e a quais choques a inflação é mais sensível.



