Na bonificação de ações, a empresa entrega ações novas aos acionistas sem cobrar nada. Quem tem 100 papéis e recebe bonificação de 10% passa a ter 110. Mas o patrimônio não cresce no dia: o preço da ação é ajustado para baixo na mesma proporção, e o investidor precisa recalcular o preço médio com o custo informado pela empresa. Em 2026, a operação ganhou uma dúvida nova, ligada à tributação de dividendos criada pela Lei 15.270/2025.
Bonificação de ações é a distribuição gratuita de novas ações, feita quando a empresa transforma reservas de lucro em capital social. O acionista recebe mais papéis, o preço por ação cai na mesma proporção e o valor total da posição fica igual. É preciso atualizar o preço médio com o custo atribuído divulgado pela empresa e declarar no Imposto de Renda.
Principais pontos
- Bonificação é a entrega de ações novas sem custo, proporcional à quantidade que o investidor já tem.
- A empresa transfere reservas de lucro para o capital social; não sai dinheiro do caixa.
- O preço da ação é ajustado para baixo na data-ex, e o valor total da posição se mantém.
- O preço médio deve ser recalculado com o custo atribuído por ação divulgado pela companhia.
- Em 2026, a Receita indicou que a capitalização de lucros pode ser tratada como emprego de lucros, sujeito à retenção de 10% acima de R$ 50 mil por mês.
O que é bonificação de ações
A bonificação acontece quando a empresa decide incorporar ao capital social parte das reservas de lucro acumuladas ao longo dos anos. Contabilmente, o dinheiro muda de gaveta dentro do patrimônio líquido, da conta de reservas para a de capital. Para representar esse capital maior, a companhia emite ações novas e as distribui aos acionistas na proporção do que cada um já tem.
O ponto central é que nenhum dinheiro sai da empresa. Diferentemente do dividendo, que transfere caixa da companhia para o acionista, a bonificação só reorganiza o balanço. Ela lembra o desdobramento, mas neste não há capitalização de reservas nem custo atribuído. Veja como funcionam desdobramento e grupamento.
Como a bonificação funciona na prática
A empresa anuncia a bonificação em fato relevante, com a proporção, a data de corte e o custo atribuído. Quem tiver ações ao fim do pregão da data-com recebe os papéis novos. No dia seguinte, a data-ex, a ação passa a ser negociada com o preço ajustado. O conceito é o mesmo dos dividendos, explicado em data-com e data-ex: o que significam.
O ajuste do preço segue uma conta simples: o preço anterior dividido por um mais a proporção da bonificação. Numa bonificação de 10%, uma ação que fechou a R$ 33,00 na data-com abre a data-ex com referência de R$ 30,00. Quem tinha 100 ações a R$ 33,00, ou R$ 3.300, passa a ter 110 ações a R$ 30,00, os mesmos R$ 3.300.
| Situação | Antes da bonificação | Depois (bonificação de 10%) |
|---|---|---|
| Quantidade de ações | 100 | 110 |
| Preço de referência | R$ 33,00 | R$ 30,00 |
| Valor da posição | R$ 3.300 | R$ 3.300 |
| Custo total para o IR (custo atribuído de R$ 18 por ação nova) | R$ 2.500 | R$ 2.680 |
| Preço médio | R$ 25,00 | R$ 24,36 |
Como recalcular o preço médio
A Instrução Normativa RFB 1.585/2015 define que o custo de aquisição das ações bonificadas é o valor do lucro ou da reserva capitalizada que corresponde ao acionista. Na prática, a empresa divulga esse número como custo atribuído por ação no próprio fato relevante ou no aviso aos acionistas. Ele não tem relação com o preço de mercado.
A conta do novo preço médio é: custo total antigo mais quantidade de ações recebidas vezes o custo atribuído, dividido pela nova quantidade total. No exemplo da tabela, o investidor tinha 100 ações compradas a R$ 25,00, ou R$ 2.500. Recebeu 10 ações com custo atribuído de R$ 18,00, somando R$ 180. O novo custo total é R$ 2.680, que dividido por 110 ações dá preço médio de R$ 24,36. Mais detalhes em como calcular e usar o preço médio.
Por que o preço médio importa no Imposto de Renda
O preço médio é a base para calcular o lucro na venda das ações. Se o investidor esquecer de incluir as ações bonificadas, ou lançá-las com custo zero, vai apurar um ganho maior do que o real e pagar mais imposto quando vender acima de R$ 20 mil no mês.
Na declaração anual, o valor correspondente ao custo atribuído vai na ficha de Rendimentos Isentos e Não Tributáveis, com o código de incorporação de reservas ao capital e bonificações em ações. A posição em Bens e Direitos deve ser atualizada com a nova quantidade e o novo custo total.
E as frações de ações?
Nem sempre a conta fecha em número inteiro. Quem tem 105 ações e recebe bonificação de 10% teria direito a 10,5 ações novas. A parte inteira, 10 ações, cai na conta. As frações de todos os acionistas são agrupadas e vendidas em leilão na B3, e o valor apurado é creditado proporcionalmente a quem tinha direito.
O prazo desse crédito aparece no aviso aos acionistas. O valor costuma ser pequeno, mas deve ser declarado conforme o informe da corretora.
A dúvida tributária de 2026
A Lei 15.270/2025 criou, a partir de 2026, uma retenção de 10% de Imposto de Renda sobre lucros e dividendos pagos por uma mesma empresa a uma pessoa física acima de R$ 50 mil no mês. A lei usa os termos pagamento, crédito, emprego ou entrega de lucros. A Receita Federal sinalizou que a capitalização de reservas de lucro, base da bonificação, pode ser vista como emprego de lucros em favor do acionista.
Na prática, isso criou um impasse. A empresa teria de reter imposto sem entregar dinheiro ao acionista, e várias companhias abertas passaram a evitar bonificações em 2026, segundo relatos de escritórios tributaristas publicados ao longo do ano. Para o pequeno investidor, o limite de R$ 50 mil por mês e por empresa raramente é atingido, mas o tema segue em discussão. Antes de vender, confira o comunicado da empresa sobre eventual retenção.
Bonificação é sinal bom ou ruim?
A bonificação, sozinha, não cria valor. O bolo é o mesmo, só cortado em mais fatias. O que ela comunica é que a empresa acumulou lucro suficiente para reforçar o capital, o que costuma ser lido como sinal de solidez.
O efeito que realmente importa está nos dividendos futuros. Se a empresa mantém o mesmo valor por ação depois de aumentar a quantidade de papéis, o acionista recebe mais. Se reduz o valor na mesma proporção, nada muda. Vale ler o fato relevante para entender qual é a intenção.
Conteúdo informativo, sem recomendação de investimento. Regras tributárias podem mudar; confira o comunicado da empresa e, se necessário, um contador.
Perguntas frequentes
O que é bonificação de ações?
É a distribuição gratuita de novas ações aos acionistas, feita quando a empresa transfere reservas de lucro para o capital social. Quem tem 100 ações e recebe bonificação de 10% passa a ter 110, mas o preço por ação cai na mesma proporção.
Bonificação de ações paga imposto?
Historicamente, a bonificação é isenta e vai na ficha de rendimentos isentos da declaração. Em 2026, a Receita indicou que a capitalização de lucros pode sofrer retenção de 10% quando o total recebido da mesma empresa passar de R$ 50 mil no mês, tema ainda em discussão.
Como calcular o preço médio depois da bonificação?
Some o custo total que você já tinha ao número de ações recebidas multiplicado pelo custo atribuído divulgado pela empresa. Depois divida pela nova quantidade total de ações. O resultado é o novo preço médio.
Quem tem direito à bonificação de ações?
Tem direito quem possui as ações no fechamento da data-com informada pela empresa. A partir da data-ex, quem compra a ação já não recebe os papéis da bonificação, e o preço passa a ser negociado com o ajuste.
O que acontece com as frações na bonificação?
As frações de ações de todos os acionistas são agrupadas e vendidas em leilão na B3. O valor obtido é depositado proporcionalmente a quem tinha direito, no prazo informado no aviso aos acionistas.



