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Real forte: quem ganha e quem perde entre as exportadoras

A Klabin lucrou 34% menos no 2T26 com o Ebitda ajustado caindo só 4%. A diferença entre os dois números explica como o câmbio decide o resultado de uma exportadora.

Real forte: quem ganha e quem perde entre as exportadoras
Foto: Engin Akyurt / Pexels

O balanço da Klabin no segundo trimestre trouxe um retrato incômodo para quem investe em exportadoras: lucro 34% menor mesmo com o preço internacional da celulose favorável. O culpado não estava na operação — o Ebitda ajustado caiu apenas 4%. Estava no câmbio, com o dólar rondando R$ 5,12 e encolhendo cada dólar faturado lá fora quando ele vira real no balanço.

Resumo rápido

Com o dólar perto de R$ 5,12, empresas que faturam em moeda estrangeira convertem menos reais por dólar vendido. A Klabin teve lucro 34% menor no 2T26 com Ebitda ajustado caindo só 4%, diferença explicada pelo câmbio. O efeito varia conforme a fatia da receita em dólar, o endividamento em moeda estrangeira e a política de proteção cambial de cada companhia.

Principais pontos
  • Klabin lucrou R$ 387 milhões no 2T26, queda de 34%, com Ebitda ajustado recuando apenas 4%.
  • A diferença entre as duas quedas é explicada pelo câmbio e por efeitos financeiros.
  • Dólar perto de R$ 5,12 reduz a conversão da receita de exportação para reais.
  • Empresas com dívida em dólar podem registrar ganho contábil quando o real se valoriza.
  • Importadoras e empresas de consumo interno tendem a se beneficiar do real mais forte.

O mecanismo em uma frase

Quando o real se valoriza, cada dólar recebido por uma exportadora vira menos reais na demonstração de resultado. O preço internacional pode estar em alta, o volume embarcado pode ter crescido, e ainda assim a receita em reais aparece menor.

É por isso que o preço da commodity, sozinho, não explica o resultado de uma exportadora brasileira. São duas variáveis multiplicando uma à outra: preço em dólar e taxa de câmbio. Quando andam em direções opostas, uma anula a outra.

O caso Klabin, na prática

A Klabin reportou lucro de R$ 387 milhões no segundo trimestre, contra R$ 585 milhões um ano antes. Queda de 34%. Mas o Ebitda ajustado — que mede a geração de caixa operacional antes de juros, impostos, depreciação e amortização — caiu apenas 4%, para R$ 1,96 bilhão.

Essa distância entre as duas quedas é o retrato do problema. A operação foi razoavelmente estável; o que derrubou o lucro foi o que acontece abaixo da linha operacional, onde entram os efeitos cambiais e financeiros. Quem olhasse só a manchete do lucro concluiria que a empresa está em dificuldade operacional — e estaria errado.

A dívida em dólar joga dos dois lados

Exportadoras costumam manter parte da dívida em moeda estrangeira, e há lógica nisso: quem recebe em dólar se protege naturalmente ao dever em dólar. É o chamado hedge natural.

O efeito contábil, porém, oscila a cada trimestre. Quando o real se valoriza, a dívida em dólar encolhe quando convertida para reais e gera ganho no resultado financeiro. Quando o real se desvaloriza, gera perda. Esses movimentos não representam entrada ou saída de caixa no trimestre — são marcação contábil —, mas passam pelo lucro líquido e distorcem a leitura de quem não separa as coisas.

Nem toda exportadora sofre igual

Fator Por que muda o impacto
Fatia da receita em dólar Quanto maior, mais exposta ao câmbio
Custos em dólar Insumos importados compensam parte da perda na receita
Dívida em moeda estrangeira Gera ganho contábil quando o real se valoriza
Política de hedge Contratos de proteção travam parte da taxa antecipadamente

Uma mineradora que vende quase toda a produção em dólar e tem custos majoritariamente em reais é muito mais sensível ao câmbio do que uma indústria que exporta 30% do que produz e importa boa parte dos insumos. Antes de generalizar “exportadora sofre com real forte”, vale conferir esses quatro itens no relatório da companhia.

Quem ganha com o real mais forte

O outro lado da moeda costuma receber menos atenção. Importadoras e empresas com custos em dólar — varejo de eletrônicos, companhias aéreas com leasing e combustível dolarizados, indústrias que dependem de insumos importados — melhoram margem quando o real se valoriza.

Empresas voltadas ao consumo interno também tendem a se beneficiar por via indireta: câmbio mais comportado ajuda a segurar a inflação de bens importados, o que dá espaço para o Banco Central seguir cortando juros, o que por sua vez alivia o endividamento e melhora o consumo. A Selic caiu para 14% ao ano nesta semana justamente com o câmbio ajudando na conta.

O tarifaço entra na mesma equação

Além do câmbio, exportadoras de setores específicos lidam agora com a sobretaxa americana. As medidas dos Estados Unidos alcançam cerca de 3 mil produtos brasileiros e US$ 6,6 bilhões em exportações, com alíquota que chega a 37,5% quando as duas taxas incidem sobre o mesmo item — detalhes em o que muda com o tarifaço.

Aqui vale a mesma disciplina: o impacto depende de quanto da receita da empresa vai para os EUA. Companhias com vendas concentradas em China e Europa estão praticamente fora dessa história, e os números agregados do comércio exterior mostram que o país segue com superávit crescente na balança comercial.

Como usar isso na sua análise

Três hábitos ajudam a não se enganar com manchete de lucro. Primeiro: comparar Ebitda com lucro líquido — se as variações forem muito diferentes, o motivo está no financeiro, não na operação. Segundo: procurar no relatório qual percentual da receita é em moeda estrangeira. Terceiro: verificar a política de proteção cambial, porque uma empresa com hedge estruturado sofre bem menos com oscilações de curto prazo.

Para comparar duas companhias do mesmo setor lado a lado, a ferramenta de comparação reúne múltiplos e indicadores. Cotações e fichas de todas as ações negociadas estão no hub de ações, e o passo a passo de leitura de demonstrações está em como ler o balanço de uma empresa.

Conteúdo informativo, sem recomendação de investimento. Cotações e taxas de câmbio variam ao longo do dia. Resultados passados não garantem desempenho futuro.

Perguntas frequentes


Por que o real forte prejudica as exportadoras?

Porque a receita em dólar vira menos reais na conversão para o balanço. Mesmo com preço internacional e volume favoráveis, o valor em reais registrado na demonstração de resultado fica menor.


Por que o lucro da Klabin caiu 34% e o Ebitda só 4%?

Porque a diferença está abaixo da linha operacional. O Ebitda mede a geração de caixa da operação; o lucro líquido inclui efeitos cambiais e financeiros, que oscilam com a variação do dólar sobre a dívida em moeda estrangeira.


Todas as exportadoras sofrem igual com o câmbio?

Não. O impacto depende da fatia da receita em dólar, de quanto dos custos também é dolarizado, do endividamento em moeda estrangeira e da política de proteção cambial de cada companhia.


Quem ganha quando o dólar cai no Brasil?

Importadoras, empresas com custos dolarizados como companhias aéreas, e negócios voltados ao consumo interno, que se beneficiam do efeito indireto de inflação mais baixa e juros em queda.


O que é hedge natural?

É quando a empresa recebe e deve na mesma moeda — fatura em dólar e mantém dívida em dólar. A estrutura protege o caixa no longo prazo, mas ainda produz oscilações contábeis no resultado a cada trimestre.


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RD

Redação Arena do Dinheiro

A Redação da Arena do Dinheiro reúne jornalistas e especialistas em finanças, investimentos e economia, responsáveis pela produção e revisão do conteúdo do portal.

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As informações desta matéria têm caráter informativo e educacional e não constituem recomendação ou oferta de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros. Investimentos envolvem riscos.


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