O comunicado do Copom afirmou que os riscos para a inflação seguem “mais elevados que o usual, com assimetria altista“. Parece jargão decorativo. Não é: a expressão tem significado técnico preciso e muda o que o comitê fará nas próximas reuniões.
Assimetria altista significa que, entre os riscos que podem tirar a inflação da trajetória projetada, os de alta são considerados mais prováveis ou mais intensos que os de baixa. O termo aparece no comunicado do Copom de 16 de setembro de 2026 e indica que o comitê trabalha com um cenário central, mas atribui peso maior à possibilidade de surpresa negativa.
Principais pontos
- Assimetria altista indica que os riscos de inflação mais alta pesam mais.
- Não é previsão de alta: é distribuição desigual de probabilidades.
- O comunicado de setembro de 2026 usou exatamente essa formulação.
- Assimetria altista reduz o espaço para cortes agressivos de juros.
- Balanço equilibrado de riscos costuma preceder decisões mais previsíveis.
O que a expressão significa
Todo banco central trabalha com um cenário central de projeção — a trajetória mais provável da inflação. Em torno dele existem riscos: fatores que podem empurrar o índice para cima ou para baixo do previsto.
Quando esses riscos são equilibrados, o comitê diz que o balanço é simétrico. Quando um dos lados pesa mais, há assimetria. Assimetria altista significa que os riscos de inflação acima do projetado são considerados mais prováveis, mais intensos, ou ambos.
O que não significa
Este é o erro de leitura mais comum. Assimetria altista não é previsão de que a inflação vai subir. O cenário central continua sendo o mesmo — o que muda é a distribuição das possibilidades ao redor dele.
A analogia útil é a de uma previsão do tempo. Dizer que provavelmente não vai chover, mas que, se chover, será tempestade, não é o mesmo que prever tempestade. É informar que o erro possível não é simétrico nos dois sentidos.
| Balanço de riscos | O que sinaliza |
|---|---|
| Simétrico | erros possíveis equilibrados nos dois sentidos |
| Assimetria altista | risco de inflação acima do projetado pesa mais |
| Assimetria baixista | risco de inflação abaixo do projetado pesa mais |
Por que isso muda a decisão
Um banco central não decide apenas com base no cenário mais provável. Decide considerando o custo de errar em cada direção — e esse cálculo é o que a assimetria informa.
Com assimetria altista, errar para o lado da leniência é mais caro: cortar demais e ver a inflação surpreender para cima obriga a reverter o ciclo depois, com custo maior de credibilidade e de atividade. Por isso a expressão costuma vir acompanhada de cautela na dose e na velocidade dos cortes.
O que sustenta a assimetria agora
O comunicado de 16 de setembro cita elementos que ajudam a entender a leitura. As expectativas de inflação colhidas pela pesquisa Focus seguem acima da meta: 4,9% para 2026 e 4,3% para 2027.
Há ainda o mercado de trabalho, descrito como aquecido, que pressiona preços de serviços via renda. E o cenário externo, com o Federal Reserve elevando juros e projetando mais aperto, o que pressiona o câmbio — canal clássico de repasse a preços. A decisão completa está em o corte da Selic para 13,75%.
A conexão com a falta de sinalização
Os dois elementos do comunicado conversam entre si. Um comitê que enxerga riscos assimétricos para cima tem motivo adicional para não se comprometer com a próxima reunião.
Prometer novo corte em novembro e depois enfrentar a materialização de um risco altista obrigaria a voltar atrás — o pior resultado possível em comunicação de banco central. A ausência de sinalização é, nesse sentido, coerente com a assimetria declarada. O ponto está em a decisão de não sinalizar.
Como usar isso na leitura dos comunicados
Acompanhar a mudança dessa expressão entre reuniões é um dos exercícios mais informativos que um investidor pode fazer, e custa poucos minutos.
Se em uma reunião o comitê descreve assimetria altista e na seguinte passa a descrever balanço simétrico, isso é uma mudança relevante de postura — muitas vezes mais significativa que o tamanho do corte anunciado. A ata, prevista para 22 de setembro, costuma detalhar quais riscos especificamente pesam mais, como tratamos em o que procurar na ata.
Conteúdo informativo, sem recomendação de investimento. As interpretações apresentadas são leituras deste veículo sobre a comunicação oficial, não declarações do Banco Central.
Perguntas frequentes
O que é assimetria altista no comunicado do Copom?
É a indicação de que, entre os riscos capazes de tirar a inflação da trajetória projetada, os de alta são considerados mais prováveis ou mais intensos que os de baixa.
Assimetria altista significa que a inflação vai subir?
Não. O cenário central de projeção permanece o mesmo. O que a expressão informa é que o erro possível não é simétrico: se houver surpresa, é mais provável que seja para cima.
Por que isso afeta a decisão de juros?
Porque o comitê considera o custo de errar em cada direção. Com assimetria altista, cortar demais e ver a inflação surpreender obrigaria a reverter o ciclo, com custo alto de credibilidade e de atividade.
O que sustenta essa leitura agora?
Expectativas do Focus acima da meta, em 4,9% para 2026 e 4,3% para 2027, mercado de trabalho aquecido pressionando serviços e o cenário externo, com o Fed elevando juros e projetando mais aperto.
Como acompanhar essa expressão?
Compare a formulação usada em reuniões consecutivas. Uma mudança de assimetria altista para balanço simétrico indica alteração relevante de postura, às vezes mais significativa que o tamanho do corte anunciado.



