A Natura viu o lucro despencar 92,1% no segundo trimestre, de R$ 446 milhões para R$ 35 milhões, com receita 9,1% menor. E a ação subiu, liderando as altas do Ibovespa em um dia de queda de 2,50%. O caso é a melhor aula possível sobre como o mercado lê balanço.
A Natura encerrou o segundo trimestre de 2026 com lucro líquido de R$ 35 milhões nas operações continuadas, queda de 92,1% ante os R$ 446 milhões de um ano antes, e receita líquida de R$ 5,17 bilhões, recuo de 9,1%. Apesar dos números fracos, a ação subiu no pregão de 11 de agosto, porque o resultado veio menos ruim do que o mercado temia e a companhia reduziu dívida e alavancagem.
Principais pontos
- O lucro líquido das operações continuadas caiu 92,1%, de R$ 446 milhões para R$ 35 milhões.
- A receita líquida somou R$ 5,17 bilhões, retração de 9,1% em doze meses.
- A ação subiu e liderou as altas do Ibovespa em um dia de queda de 2,50% do índice.
- A companhia reduziu o endividamento e melhorou a alavancagem no período.
- O próprio CEO afirmou que as dificuldades no Brasil superaram as expectativas da empresa.
Os números do trimestre
Não há como suavizar: o resultado operacional foi fraco. O lucro líquido das operações continuadas caiu de R$ 446 milhões no segundo trimestre de 2025 para R$ 35 milhões, uma queda de 92,1%. A receita líquida recuou 9,1%, para R$ 5,17 bilhões.
Queda de receita e queda ainda maior de lucro indicam compressão de margem: a empresa vendeu menos e, sobre o que vendeu, sobrou proporcionalmente menos. O próprio presidente da companhia reconheceu que as dificuldades no mercado brasileiro superaram o que a empresa projetava.
Então por que a ação subiu
Aqui está o mecanismo que confunde quem acompanha balanços pela manchete. O preço de uma ação já incorpora a expectativa do mercado. Se todos esperam um trimestre ruim, o preço atual já reflete isso — e o que move o papel na divulgação é a diferença entre o esperado e o entregue.
A ação da Natura vinha performando mal, com o mercado precificando deterioração acentuada. Quando o resultado saiu, ele foi ruim, mas menos ruim que o temido. Quem estava posicionado para um desastre maior recomprou. É a mesma lógica que faz uma empresa com lucro recorde cair quando o mercado esperava lucro ainda maior — situação vivida no mesmo trimestre por Petrobras e BTG Pactual.
A dívida melhorou, e isso importa
Houve um elemento concreto além da expectativa. A companhia reduziu o endividamento e melhorou a alavancagem no período — indicador que mede quantas vezes a dívida líquida supera a geração de caixa.
Para uma empresa em reestruturação, alavancagem é frequentemente mais importante que lucro trimestral. Dívida alta com juros a 14,00% ao ano consome caixa, limita investimento e, em cenários extremos, ameaça a continuidade. Uma empresa que perde lucro mas reduz dívida está comprando tempo para a recuperação; uma que mantém lucro e aumenta dívida pode estar cavando um buraco. O conceito está em como ler o balanço de uma empresa.
Operações continuadas: leia essa expressão com atenção
Os R$ 35 milhões referem-se às operações continuadas — ou seja, aos negócios que a empresa pretende manter. Resultados de unidades vendidas, descontinuadas ou em processo de desinvestimento são apresentados separadamente.
A separação é correta e prevista nas normas contábeis, porque mistura-las distorceria a comparação entre períodos. Mas ela também significa que o número divulgado não é necessariamente o resultado total da companhia no trimestre. Comparar o lucro de operações continuadas de um ano com o lucro total de outro é um erro comum e produz conclusões erradas.
O que ainda não se sabe
Vale ser explícito sobre os limites da leitura. Um trimestre menos ruim que o temido não é sinal de recuperação: é ausência de piora adicional. A receita continua caindo, a margem continua pressionada e o próprio comando da empresa admite que o Brasil surpreendeu negativamente.
Analistas que comentaram o balanço mantiveram cautela com o papel, justamente porque a melhora foi relativa à expectativa, não aos fundamentos. Para que a tese vire recuperação de fato, seria preciso ver receita voltando a crescer e margem se recompondo — e isso não aconteceu neste trimestre.
A lição para quem investe
Três hábitos evitam interpretar mal uma divulgação. O primeiro é procurar o consenso antes de julgar o número: sem saber o que se esperava, o resultado isolado não informa nada sobre a reação do preço.
O segundo é olhar além do lucro — dívida, geração de caixa, margem e receita contam a história que a última linha esconde. O terceiro é desconfiar de reação de um único pregão: alta no dia do balanço não valida a tese, assim como queda não a invalida. O que decide o retorno de longo prazo é o desempenho operacional ao longo de vários trimestres, e não a leitura de uma manhã. Vale ler também análise fundamentalista e como saber se uma ação está cara.
Conteúdo informativo, sem recomendação de investimento. Dados do balanço do segundo trimestre de 2026 divulgado em 11 de agosto de 2026; avaliações de casas de análise são de responsabilidade das próprias instituições.
Perguntas frequentes
Quanto a Natura lucrou no segundo trimestre de 2026?
O lucro das operações continuadas foi de R$ 35 milhões, queda de 92,1% ante os R$ 446 milhões do mesmo período de 2025. A receita líquida somou R$ 5,17 bilhões, com recuo de 9,1%.
Por que a ação da Natura subiu com lucro em queda?
Porque o preço já embutia um resultado ruim, e o número veio menos ruim do que o mercado temia. O que move a ação na divulgação é a diferença entre o esperado e o entregue, não o valor absoluto.
O que significa lucro de operações continuadas?
É o resultado apenas dos negócios que a empresa pretende manter, separado de unidades vendidas ou descontinuadas. Por isso não corresponde necessariamente ao resultado total do trimestre.
A Natura melhorou em algum ponto?
Sim, reduziu o endividamento e melhorou a alavancagem no período. Para uma empresa em reestruturação com juros a 14% ao ano, esse indicador costuma pesar mais que o lucro de um trimestre.
O resultado indica recuperação da empresa?
Não necessariamente. A receita segue caindo e a margem, pressionada, e o próprio CEO afirmou que as dificuldades no Brasil superaram as expectativas. A melhora foi em relação ao temido, não aos fundamentos.



