A temporada de balanços do segundo trimestre já tem resultados suficientes para revelar um padrão — e ele é claro: o mercado está premiando evidência de retorno e punindo promessa. Embraer disparou 5,3%, Microsoft subiu forte, Meta caiu mais de 7% e Santander tombou 6,4%. Veja o que os primeiros números ensinam antes da rodada decisiva de agosto.
Os primeiros resultados do segundo trimestre de 2026 mostram um mercado que recompensa entrega comprovada e pune promessa. Embraer subiu com entregas recordes, Microsoft avançou com Azure em 43% e backlog em alta de 84%, enquanto Meta caiu mais de 7% com lucro 14% menor e capex elevado, e Santander despencou 6,4% com queda de 17,6% no lucro.
Principais pontos
- Embraer: 65 aeronaves entregues, melhor 2º trimestre em 16 anos, ação +5,3%.
- Microsoft: receita de US$ 90 bilhões, Azure +43%, ação em alta forte.
- Meta: receita acima do esperado, mas lucro -14% e ação -7%.
- Santander Brasil: lucro -17,6%, ROAE 12,5%, ação -6,4%.
- O critério do mercado: dados operacionais e receita contratada valem mais que projeção.
Quem entregou: Embraer e Microsoft
A Embraer abriu a temporada com números operacionais difíceis de contestar: 65 aeronaves entregues no trimestre, alta de 7% e melhor desempenho para um segundo trimestre em 16 anos, com carteira de pedidos batendo recorde pelo sétimo trimestre consecutivo. A ação subiu 5,3% no dia.
A Microsoft seguiu a mesma lógica em outra escala: receita de US$ 90 bilhões, alta de 18%, Azure crescendo 43% acima do topo do guidance e receita já contratada — o RPO comercial — avançando 84%. O mercado premiou com alta forte um papel que acumulava queda superior a 19% no ano.
O que une os dois casos: ambos apresentaram indicadores de demanda futura já contratada. Carteira de pedidos, no caso da fabricante; obrigações de desempenho remanescentes, no caso da empresa de software. É a diferença entre dizer que a demanda existe e mostrar o contrato assinado.
Quem decepcionou: Meta e Santander
A Meta reportou receita de US$ 60,8 bilhões, acima do esperado, mas lucro líquido 14% menor, pressionado por encargos legais, custos de rescisão e alíquota maior de imposto. Somado à elevação do piso do capex de 2026 para US$ 130 bilhões, o resultado derrubou a ação mais de 7%.
O Santander Brasil teve lucro de R$ 3,014 bilhões, queda de 17,6% e abaixo do consenso de R$ 3,4 bilhões, com retorno sobre patrimônio recuando para 12,5%. Compressão de spread e aumento do custo do crédito explicaram a maior parte da piora. A ação caiu 6,4%.
Nos dois casos, a receita não era o problema — a Meta cresceu forte e o Santander expandiu a carteira de crédito. O problema estava na conversão de receita em lucro. Em um ambiente de juros altos, o mercado tem tolerância baixíssima com margem sob pressão.
A lição sobre o ciclo de IA
Microsoft e Meta gastam somas comparáveis em infraestrutura de inteligência artificial — centenas de bilhões de dólares. Reportaram no mesmo dia. Uma subiu, a outra caiu mais de 7%.
A diferença não foi o volume de investimento: foi a existência de uma ponte visível entre gasto e receita futura. Quando a Microsoft mostra backlog crescendo 84%, ela está dizendo que o capex atende demanda contratada. Quando uma companhia eleva o piso do capex sem métrica equivalente, o mercado interpreta como aposta — e aposta, hoje, é descontada no preço.
O alerta do setor bancário
O resultado do Santander levantou uma dúvida que só será respondida em agosto: a compressão de margem é específica dele ou atinge todo o setor? A leitura predominante é de problema particular — a instituição tem trajetória de receita mais fraca há vários trimestres e questões próprias de inadimplência.
Mas o mecanismo por trás da piora não é exclusivo: juros altos por tempo prolongado elevam inadimplência e comprimem spreads em qualquer banco. A resposta vem com Itaú em 4 de agosto e Bradesco em 5 de agosto, este último apontado por analistas como o destaque esperado, com consenso de lucro em torno de R$ 7 bilhões.
O que ainda vem
| Data | Companhia | O que observar |
|---|---|---|
| 30 de julho | Vale | Preço realizado, caixa e anúncio de proventos do semestre |
| 30 de julho | Apple e Amazon | Margem e iPhone; crescimento da AWS |
| 4 de agosto | Itaú Unibanco | Margem financeira, ROE e custo do crédito |
| 5 de agosto | Bradesco | Consenso de lucro perto de R$ 7 bi e ROE em torno de 16% |
| 6 de agosto | Petrobras | Geração de caixa, dívida e dividendos |
| 12 de agosto | Banco do Brasil | Fecha o ciclo dos grandes bancos |
Como usar essa leitura
Três conclusões práticas. Primeira: em temporada de balanços, guidance importa mais que o número do trimestre. Os movimentos mais violentos vieram de projeções, não de resultados passados.
Segunda: receita crescendo não garante nada se a margem não acompanha. Meta e Santander cresceram receita e caíram na bolsa. Terceira: indicadores de demanda contratada — carteira de pedidos, backlog, contratos de longo prazo — são o que mais convence o mercado atualmente.
E a recomendação que vale sempre: não reagir aos primeiros minutos após a divulgação. A cotação naquele momento reflete posições de curto prazo, e é comum a ação inverter depois da teleconferência. Nossos guias de como ler um balanço e de EBITDA ajudam a fazer a leitura com calma.
Datas conforme calendários divulgados pelas companhias, sujeitas a alteração. Conteúdo informativo, sem recomendação de investimento.
Perguntas frequentes
Como está a temporada de balanços do 2T26?
Mista e com padrão claro: Embraer e Microsoft subiram após mostrar dados operacionais e demanda contratada, enquanto Meta caiu mais de 7% e Santander Brasil recuou 6,4% por pressão sobre margens e lucro.
Por que a Microsoft subiu e a Meta caiu?
Ambas gastam somas comparáveis em IA, mas a Microsoft mostrou Azure crescendo 43% e receita contratada em alta de 84%, evidência de demanda. A Meta elevou o piso do capex com lucro 14% menor, sem métrica equivalente de receita futura contratada.
O resultado do Santander indica problema em todos os bancos?
A leitura predominante é de problema específico, já que a instituição tem receita mais fraca há trimestres. Mas compressão de spread e custo de crédito afetam todo o setor em ambiente de juros altos. Itaú (4/ago) e Bradesco (5/ago) vão esclarecer.
Quais balanços ainda vêm?
Vale, Apple e Amazon em 30 de julho; Itaú em 4 de agosto; Bradesco em 5 de agosto; Petrobras em 6 de agosto; e Banco do Brasil em 12 de agosto.
O que mais move a ação em um balanço?
O guidance, ou seja, a projeção para os próximos trimestres, mais do que o resultado do período reportado. Nesta temporada, as maiores oscilações vieram de revisões de investimento e de perspectivas, não dos números passados.



