Quem tem um título indexado ao IGP-M está recebendo correção de 2,16% em 12 meses. Quem tem um indexado ao IPCA recebe 4,24%. Mesma família de investimento, quase o dobro de diferença — e a explicação não está na taxa contratada, mas em qual índice foi escolhido como referência.
Com o IGP-M acumulando 2,16% em 12 meses e o IPCA-15 em 4,24%, títulos indexados ao índice geral de preços entregam correção significativamente menor que os atrelados ao IPCA. A diferença explica por que o mercado brasileiro migrou quase integralmente para o IPCA como indexador de longo prazo, deixando o IGP-M restrito a contratos de aluguel e a papéis antigos.
Principais pontos
- O IGP-M acumula 2,16% em 12 meses e o IPCA-15, 4,24%.
- Títulos IGP-M+ corrigem o principal por um índice que está abaixo do centro da meta.
- O IGP-M é muito mais sensível a câmbio e commodities que ao consumo.
- A volatilidade do IGP-M é alta: em abril de 2026 ele subiu 2,73% num único mês.
- Praticamente não se emitem novos títulos indexados ao IGP-M no Brasil.
Como funciona um título indexado
Um papel do tipo “índice mais taxa” tem duas pernas. A correção do principal acompanha o índice escolhido, protegendo o poder de compra. E a taxa real, contratada na compra, é o ganho acima desse índice.
Se você compra um título IPCA mais 7% e a inflação do período for de 4%, o retorno nominal é de aproximadamente 11%. A taxa real é fixa e conhecida; a correção é variável e desconhecida. Por isso a escolha do indexador não é detalhe: ela define metade do resultado. O funcionamento está em marcação a mercado no Tesouro Direto.
A diferença de 2 pontos percentuais
Faça a conta com números reais. Um título IGP-M mais 6% com o índice a 2,16% entrega cerca de 8,3% nominais. Um título IPCA mais 6% com o índice a 4,24% entrega cerca de 10,5%.
São 2,2 pontos percentuais de diferença, com a mesma taxa real contratada e o mesmo risco de crédito. Em dez anos, aplicados sobre R$ 100 mil, a diferença acumulada passa de R$ 50 mil. Não é diferença de qualidade do investimento — é diferença de régua. A causa está em por que os dois índices divergiram tanto em 2026.
| Cenário | Índice em 12 meses | Taxa real | Retorno nominal aproximado |
|---|---|---|---|
| IGP-M + 6% | 2,16% | 6% | ~8,3% |
| IPCA + 6% | 4,24% | 6% | ~10,5% |
| CDI (referência) | — | — | 9,27% no ano até 28/08 |
| Selic atual | — | — | 14,00% ao ano |
Por que o IGP-M perdeu espaço
Não foi por ser um índice ruim, e vale ser preciso sobre isso: ele mede bem o que se propõe a medir. O problema é que o que ele mede não é o custo de vida de ninguém — 60% do peso está no atacado, sensível a câmbio e commodities.
Isso o torna volátil de um modo incompatível com contrato longo. Em abril de 2026 ele subiu 2,73% num único mês; entre junho e agosto, registrou três meses de deflação. Um investidor que precisa de previsibilidade não consegue planejar com um indexador que oscila assim. Foi por isso que o mercado migrou para o IPCA, e hoje praticamente não se emitem novos papéis IGP-M+.
Quem ainda tem esse indexador
Três situações principais. A primeira é quem carrega papéis antigos — debêntures e alguns títulos emitidos em outra época, quando o IGP-M era padrão de mercado. A segunda é quem tem contrato de aluguel, onde ele segue como indexador tradicional.
A terceira, e a que mais surpreende, é quem tem fundo imobiliário de papel. Alguns desses fundos mantêm carteiras com créditos indexados ao IGP-M, e nesse caso a distribuição de rendimentos acompanha o índice. Com 2,16% em 12 meses, esses fundos rendem menos que os indexados ao IPCA ou ao CDI — e a diferença aparece no provento mensal, não no valor da cota. Vale conferir a composição em como analisar um FII.
O outro lado: quem paga
Vale registrar a simetria, porque para cada investidor recebendo pouco há alguém pagando pouco. Quem deve em IGP-M está sendo beneficiado: dívida corrigida por 2,16% em 12 meses cresce bem menos que uma corrigida por IPCA, e muito menos que uma corrigida por CDI, com a Selic a 14%.
O caso mais comum é o inquilino: reajuste de 2,16% no aniversário do contrato é o menor em anos. E aparece também em financiamentos e contratos empresariais antigos indexados ao índice geral. Indexador não é bom nem ruim em si — depende de qual lado da relação você está.
A reversão é plausível e rápida
Aqui está o alerta importante para quem estiver tentado a concluir que IGP-M é sempre pior. Como o índice depende principalmente de câmbio, ele muda de sinal com velocidade — e o câmbio acabou de virar.
A PTAX subiu a R$ 5,2005 na sexta-feira, depois do discurso do Fed. Se o dólar seguir em alta, o atacado volta a pressionar e o IGP-M pode superar o IPCA em poucos meses, como aconteceu em 2021 e 2022, quando produziu reajustes de dois dígitos. Quem tem título IGP-M+ hoje recebe pouco; num cenário de real fraco, receberia mais que o vizinho com IPCA.
O que isso significa para você
Três leituras. Sobre o que checar: se você tem debênture, CRI, CRA ou fundo de papel, verifique qual índice corrige o papel. Muita gente descobre que tem exposição a IGP-M ao estranhar um rendimento baixo — e a informação está no prospecto e no relatório gerencial.
Sobre não trocar por reação: vender um título indexado porque o índice está baixo agora é o erro clássico. O indexador é volátil justamente nas duas direções, e vender antes do vencimento expõe você à marcação a mercado, que é um segundo prejuízo.
Sobre o que comprar hoje: para objetivo de longo prazo com data conhecida — aposentadoria, faculdade de filho —, o indexador que corresponde ao seu custo de vida é o IPCA, não o IGP-M. A conta do ganho real está em quanto você ganha de verdade acima da inflação.
Conteúdo informativo, sem recomendação de investimento. Dados de índices conforme divulgações da FGV e do IBGE até 28 de agosto de 2026. As simulações de retorno nominal são aritméticas, ilustrativas e não consideram imposto de renda nem taxas.
Perguntas frequentes
Quanto rende um título IGP-M hoje?
A correção do principal está em 2,16% em 12 meses, mais a taxa real contratada. Um IGP-M mais 6% entrega cerca de 8,3% nominais, contra cerca de 10,5% de um IPCA mais 6%.
Por que a diferença entre os dois indexadores é tão grande?
Porque o IGP-M tem 60% de peso em preços de atacado, sensíveis a câmbio e commodities, e o real se valorizou em 2026. O IPCA mede consumo, onde a inflação de serviços segue resistente.
Ainda se emitem títulos indexados ao IGP-M?
Praticamente não. A volatilidade do índice é incompatível com contrato longo — em abril de 2026 subiu 2,73% num único mês e teve três meses de deflação no meio do ano. O mercado migrou para o IPCA.
Devo vender meu título IGP-M?
Vender porque o índice está baixo agora é o erro clássico. O indexador é volátil nas duas direções, e vender antes do vencimento expõe você à marcação a mercado — um segundo prejuízo sobre o primeiro.
O IGP-M pode voltar a superar o IPCA?
Sim, e depende principalmente do câmbio. Com a PTAX subindo a R$ 5,2005 após o discurso do Fed, o atacado pode voltar a pressionar. Em 2021 e 2022 o índice produziu reajustes de dois dígitos.



