Dois índices oficiais medem a inflação brasileira e, em agosto de 2026, eles discordam pela metade: o IGP-M acumula 2,16% em 12 meses e o IPCA-15, 4,24%. Nenhum está errado. A diferença tem uma causa identificável — e saber qual dos dois olhar muda decisões de contrato, de reajuste e de investimento.
Em agosto de 2026, o IGP-M acumulava 2,16% em 12 meses e o IPCA-15, 4,24% — quase o dobro. A divergência vem da composição: o IGP-M tem 60% de peso em preços no atacado, sensíveis a câmbio e commodities, enquanto o IPCA mede exclusivamente preços ao consumidor, onde a inflação de serviços é dominante e mais persistente.
Principais pontos
- O IGP-M acumula 2,16% em 12 meses e o IPCA-15, 4,24% — quase o dobro.
- O IGP-M tem 60% de peso em atacado, 30% em consumidor e 10% em construção.
- O IPCA mede apenas preços ao consumidor, com peso grande em serviços.
- Atacado responde a câmbio e commodities; serviço responde a salário.
- A meta de inflação do Banco Central é verificada no IPCA, não no IGP-M.
Eles medem etapas diferentes da economia
O IPCA mede o que a família paga: supermercado, aluguel, escola, transporte, plano de saúde. É inflação de ponta final, calculada pelo IBGE sobre uma cesta de consumo pesquisada em várias capitais.
O IGP-M, calculado pela FGV, é um índice geral — mede a economia em três estágios. Sessenta por cento do peso está no atacado, o produtor vendendo ao comércio; 30% em preços ao consumidor; e 10% em custo de construção. Comparar os dois é comparar o preço da tonelada de trigo com o preço do pão: relacionados, mas não iguais, e com defasagem entre um e outro.
O atacado responde a câmbio
Aqui está a causa principal da divergência de 2026. O atacado brasileiro é dominado por commodities: soja, milho, minério, aço, químicos, combustíveis. E o preço dessas mercadorias é formado em dólar, pela paridade internacional.
Quando o real se valoriza, esses produtos ficam mais baratos em reais mesmo sem nenhuma mudança na cotação internacional. Foi o que aconteceu: o dólar recua 4,35% em 2026, e o IGP-M registrou três meses consecutivos de deflação. Câmbio explica a maior parte do movimento do índice geral — e explica quase nada do IPCA.
| Característica | IGP-M | IPCA |
|---|---|---|
| Calculado por | FGV | IBGE |
| O que mede | Atacado, consumidor e construção | Só preços ao consumidor |
| Peso do atacado | 60% | Zero |
| Principal sensibilidade | Câmbio e commodities | Salário e demanda interna |
| Volatilidade | Alta | Moderada |
| Vale para a meta de inflação | Não | Sim |
| 12 meses em agosto de 2026 | 2,16% | 4,24% (IPCA-15) |
O consumidor responde a salário
Do outro lado, o IPCA é puxado pelo que menos responde a câmbio: serviços. Escola, aluguel, plano de saúde, salão, conserto, transporte por aplicativo. Nada disso é importado, nada é cotado em dólar, e o principal custo de todos é mão de obra.
Como salário raramente é reajustado para baixo e boa parte dos serviços tem contrato indexado à inflação passada, esse bloco sobe com inércia. Em agosto de 2026, enquanto o índice cheio vinha negativo, os serviços subjacentes aceleraram para 0,50%. É o motivo estrutural pelo qual o IPCA não cai junto com o IGP-M, detalhado em por que a inflação de serviços não cede.
A defasagem entre eles
Há um segundo mecanismo, e ele é temporal. O atacado antecede o consumidor: quando o custo do produtor cai, o comércio demora meses para repassar — se repassar. Margem apertada tende a ser recomposta antes de o preço final baixar.
Isso significa que a deflação atual do IGP-M pode chegar ao consumidor mais adiante, de forma parcial. Mas a transmissão é assimétrica e bem documentada: alta de atacado passa rápido para a prateleira, queda passa devagar. Não é conspiração — é como funciona formação de preço em mercado com margens pressionadas.
Qual dos dois olhar
Depende inteiramente do uso, e a regra é simples. Para o seu custo de vida, use o IPCA: é a cesta de consumo, é o que mede o que você paga. Para política monetária, também IPCA — a meta do Banco Central, de 3% com teto de 4,5%, é verificada nele, e o Copom decide juros olhando esse número.
Para contrato, use o que está escrito no contrato: aluguel tradicionalmente usa IGP-M, e é ele que vale ali, independentemente de qual índice descreve melhor a economia. E para investimento, o indexador dominante é o IPCA — títulos IGP-M+ praticamente saíram de circulação, justamente porque o índice é volátil demais para servir de referência de longo prazo.
A divergência pode inverter
Vale dizer o que muda o quadro. Como o IGP-M é muito mais sensível a câmbio, uma alta sustentada do dólar reverte o índice geral com rapidez — e ele é conhecido pela amplitude: em abril de 2026 subiu 2,73% num único mês.
O IPCA, por depender de serviço e salário, muda devagar nas duas direções. Ou seja: o cenário em que o IGP-M volta a superar o IPCA é plausível e depende de uma única variável. Com o dólar tendo subido a R$ 5,2005 na sexta-feira após o discurso do Fed, essa possibilidade deixou de ser remota.
O que isso significa para você
Três leituras. Sobre contrato: ao assinar aluguel, a escolha do indexador é uma decisão financeira real, não formalidade. Hoje o IGP-M favorece o inquilino; em 2021 e 2022 ele produziu reajustes de dois dígitos e favoreceu o proprietário. A comparação está em IPCA ou IGP-M para reajuste.
Sobre notícia de inflação: sempre confira qual índice está sendo citado. Manchetes de “inflação em queda” apoiadas em IGP-M dizem pouco sobre o supermercado.
Sobre expectativa de juros: IGP-M baixo não antecipa corte de Selic. O Copom olha o IPCA e, dentro dele, o núcleo de serviços. Quem tentou prever política monetária pelo índice geral errou consistentemente em 2026.
Conteúdo informativo, sem recomendação de investimento. Dados conforme divulgações da FGV e do IBGE até 28 de agosto de 2026. Pesos dos componentes seguem a metodologia vigente de cada índice.
Perguntas frequentes
Por que o IGP-M está tão abaixo do IPCA?
Porque medem etapas diferentes da economia. O IGP-M tem 60% de peso em atacado, sensível a câmbio e commodities, e o real se valorizou em 2026. O IPCA mede só consumidor, onde serviços seguem resistentes.
Qual índice devo usar para medir meu custo de vida?
O IPCA. Ele mede uma cesta de consumo das famílias, que é o que você efetivamente paga. O IGP-M mede principalmente preços de atacado, que não correspondem à sua fatura de supermercado.
Qual índice vale para a meta de inflação?
O IPCA. A meta do Banco Central, de 3% com intervalo de tolerância até 4,5%, é verificada no IPCA fechado. O IGP-M não entra nessa aferição, mesmo estando abaixo do centro da meta.
A queda do atacado vai chegar ao consumidor?
Parcialmente e devagar. O atacado antecede o consumidor, mas a transmissão é assimétrica: alta de custo passa rápido para a prateleira e queda passa devagar, porque a margem apertada tende a ser recomposta primeiro.
Essa diferença entre os índices pode se inverter?
Sim, e depende principalmente do câmbio. O IGP-M é volátil — em abril de 2026 subiu 2,73% num único mês. Com o dólar a R$ 5,2005 após o discurso do Fed, o cenário de reversão deixou de ser remoto.



