A Méliuz (CASH3) registrou lucro líquido de R$ 113,7 milhões no terceiro trimestre de 2026, com efeitos contábeis positivos do bitcoin e de tributos diferidos. Sem os itens classificados pela empresa como extraordinários, o lucro ajustado foi de R$ 19,6 milhões, alta de 28,4% sobre um ano antes. A receita líquida caiu 22,3%, para R$ 96,1 milhões.
Última cotação de CASH3 na B3: R$ 4,33 (+3,10% no dia) em 05/11/2026 (fonte: Brapi).
Resumo rápido
O resultado da Méliuz combinou queda no comércio eletrônico com ganhos contábeis sem entrada de dinheiro no caixa. A recuperação judicial da Casas Bahia afetou as comissões e levou à constituição de uma provisão para perdas. Produtos fora das comissões do varejo on-line cresceram em base comparável, enquanto a companhia vendeu parte dos bitcoins para financiar recompras de ações.
Principais pontos
- O lucro líquido consolidado foi de R$ 113,7 milhões, ante R$ 14,2 milhões no terceiro trimestre de 2025.
- A reversão de uma perda contábil de bitcoin acrescentou R$ 78,5 milhões ao resultado, sem efeito no caixa.
- A receita do comércio eletrônico caiu 35,3%, para R$ 50,4 milhões.
- O EBITDA ajustado, medida de resultado antes de juros, impostos, depreciação e amortização, com exclusão de itens definidos pela empresa, recuou 37,7%, para R$ 17 milhões.
- A base chegou a 56,6 milhões de contas cadastradas, crescimento de 23,3% em um ano.
- A companhia vendeu 78 bitcoins por R$ 29,4 milhões e contratou opções para ter o direito de recomprá-los em 2027.
O que levou o lucro a R$ 113,7 milhões
A maior parcela dos efeitos extraordinários veio da reversão de impairment, uma perda reconhecida quando o valor recuperável de um ativo cai. No trimestre, a recuperação do bitcoin permitiu reverter R$ 78,5 milhões de perdas anteriores. Isso aumentou o lucro registrado, mas não representou dinheiro recebido pela companhia.
Segundo o relatório, essa reversão respeita o limite do custo de aquisição. Portanto, não se trata de registrar livremente toda valorização do ativo como lucro: a regra descrita pela Méliuz permite recuperar contabilmente perdas anteriores até esse limite.
Outro efeito positivo foi o reconhecimento de R$ 25,8 milhões em imposto de renda e contribuição social diferidos, registros tributários ligados a períodos futuros, decorrentes da incorporação da Alter em agosto de 2026. Esse lançamento também não teve impacto no caixa.
Na direção contrária, os efeitos extraordinários associados à Casas Bahia reduziram o resultado em R$ 10,2 milhões líquidos. Excluídos esses componentes, o lucro ajustado chegou a R$ 19,6 milhões, com margem de 20,4% da receita. O indicador ajustado é uma leitura complementar da empresa, não uma substituição do lucro contábil.
Casas Bahia e mudança de parceiros reduziram as comissões
A Méliuz atribuiu boa parte da retração do comércio eletrônico ao pedido de recuperação judicial da Casas Bahia, apresentado em agosto de 2026. A recuperação judicial é um processo de reorganização de dívidas; neste caso, seus efeitos chegaram tanto à geração de comissões quanto aos valores que a plataforma tinha a receber.
Tomando como referência as comissões geradas pela parceira no terceiro trimestre de 2025, a companhia estimou que deixou de reconhecer cerca de R$ 15 milhões em receita. Separadamente, constituiu uma provisão de R$ 14 milhões para possíveis perdas com recebíveis, ou seja, valores ainda devidos pela varejista.
Essa despesa foi parcialmente compensada pelo estorno de R$ 3,8 milhões de cashback, a devolução de parte do valor da compra ao usuário, que havia sido provisionado em ligação com as comissões da parceira. Daí o efeito extraordinário líquido negativo de R$ 10,2 milhões.
O GMV, volume total de compras realizadas por meio da plataforma, caiu 3,3%, para R$ 1,25 bilhão. Já o take rate, percentual médio de comissão sobre esse volume, passou de 7,2% para 6,3%. Segundo a Méliuz, a mudança na distribuição das vendas entre parceiros explica a maior parte dessa redução. A empresa também iniciou uma parceria com o Mercado Livre, ainda em fase de expansão.
Produtos além do varejo on-line ganharam participação
O Shopping Brasil, que reúne o comércio eletrônico e outras soluções da plataforma, faturou R$ 70,7 milhões, queda de 28%. Dentro dele, os produtos chamados de beyond e-commerce — fontes de receita além das comissões do varejo on-line — somaram R$ 20,3 milhões e responderam por 28,7% da receita do segmento.
A comparação anual exige um ajuste. O terceiro trimestre de 2025 concentrou R$ 3,9 milhões de receitas de períodos anteriores por uma reclassificação contábil. Sem esse efeito, a base seria de R$ 16,4 milhões, e o crescimento em 2026 foi de 23,8%. A mudança entre linhas contábeis não afetou o EBITDA daquele período.
Esse grupo inclui Méliuz Nota Fiscal, Méliuz Prime, publicidade e outros produtos. Segundo a companhia, 61% dos usuários que compraram no comércio eletrônico durante o trimestre também usaram outras soluções da plataforma. O número total de compradores cresceu 9,7%, apesar da queda no volume financeiro das compras.
Em Serviços Financeiros, a receita avançou 9,7%, para R$ 10,5 milhões. A parceria com o banco BV permanece válida durante o aviso prévio, até junho de 2027. Para a etapa seguinte, a Méliuz testa parcelamento via Pix com um grupo restrito de usuários e parceiros especializados em crédito.
Custos menores não impediram a queda do resultado operacional
Os custos e despesas ajustados somaram R$ 82,2 milhões, redução de 19% em relação ao terceiro trimestre de 2025. O gasto ajustado com cashback caiu 21%, para R$ 40,3 milhões, acompanhando a menor atividade do Shopping Brasil. As despesas com pessoal recuaram 20%, principalmente pela revisão de provisões de remuneração variável.
Mesmo com essas reduções, o EBITDA ajustado diminuiu para R$ 17 milhões, com margem de 17,7% da receita. A queda da receita do comércio eletrônico foi o principal motivo apontado pela empresa. Esse indicador ajuda a separar o desempenho operacional dos efeitos extraordinários do bitcoin.
A janela mais longa mostrou outra trajetória: nos últimos 12 meses, a receita cresceu 9,8%, para R$ 468,3 milhões, e o EBITDA ajustado avançou 26,7%, para R$ 99 milhões. São resultados acumulados, que incluem outros trimestres e não eliminam a retração registrada no período mais recente.
Venda de bitcoin financiou a recompra de ações
A Méliuz destinou os recursos da venda de 78 bitcoins ao segundo programa de recompra, anunciado em agosto de 2026 e limitado a 8,1 milhões de ações. A recompra é a aquisição, pela própria companhia, de suas ações. O primeiro programa resultou na compra e no cancelamento de 9,1 milhões de papéis.
Em conjunto com a venda dos bitcoins, a empresa contratou opções de compra, instrumentos que dão o direito de adquirir o ativo por condições previamente definidas. Os contratos permitem recomprar os mesmos 78 bitcoins em 2027, com custo máximo de aquisição de US$ 5,85 milhões.
No fechamento do trimestre, a posição efetivamente em custódia era de 526,7 bitcoins. O indicador de bitcoin por ação caiu 5,8%, pois a redução da reserva foi proporcionalmente maior que a diminuição do número de ações em circulação. A melhora futura apresentada pela administração depende da conclusão da operação de recompra dos bitcoins.
O que muda para o acionista
O resultado mostra por que lucro contábil, desempenho operacional e caixa precisam ser lidos separadamente neste caso. Enquanto o lucro chegou a R$ 113,7 milhões, a variação do caixa operacional foi positiva em R$ 8,3 milhões no trimestre, após pagamentos de cashback e movimentações de recebimentos e obrigações do negócio.
Para os próximos períodos, o relatório deixa duas frentes concretas: a execução da estratégia de recompra, com opções sobre bitcoin vencendo em 2027, e a preparação dos serviços financeiros para o encerramento da parceria com o BV. O documento também marca a apresentação dos resultados para 5 de novembro de 2026, às 11h, no horário de Brasília.
Perguntas frequentes
Quanto a Méliuz lucrou no terceiro trimestre?
A Méliuz teve lucro líquido consolidado de R$ 113,7 milhões no terceiro trimestre de 2026. Pela medida ajustada da companhia, que exclui os efeitos extraordinários, o lucro foi de R$ 19,6 milhões, avanço de 28,4% em um ano.
O ganho com bitcoin entrou no caixa?
Não: a reversão contábil de R$ 78,5 milhões não gerou entrada de dinheiro. Ela recuperou parte de perdas anteriormente reconhecidas sobre os bitcoins, respeitando o limite do custo de aquisição descrito no relatório.
Como a Casas Bahia afetou o resultado?
A situação da parceira afetou as comissões da Méliuz e levou a uma provisão de R$ 14 milhões para possíveis perdas com valores a receber. Um estorno de cashback de R$ 3,8 milhões compensou parte dessa despesa, deixando um efeito extraordinário negativo de R$ 10,2 milhões.
Por que a Méliuz vendeu parte dos bitcoins?
A companhia vendeu 78 bitcoins para destinar recursos ao segundo programa de recompra de ações. Também contratou opções que dão o direito de readquirir essa quantidade em 2027 por condições previamente definidas.
A parceria com o banco BV já acabou?
Não: o acordo continua válido e em execução durante o aviso prévio, até junho de 2027. A Méliuz já prepara novas soluções e testa o parcelamento via Pix com um grupo restrito de usuários.
Ativos citados nesta matéria
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