O Banco Central divulgou na terça-feira (22) a ata da reunião que cortou a Selic para 13,75% ao ano. O documento confirma o diagnóstico de economia desacelerando, mas repete que as expectativas de inflação desancoradas exigem juros restritivos por mais tempo — e não promete nada para novembro.
A ata do Copom de setembro, divulgada em 22 de setembro de 2026, detalha o corte unânime de 0,25 ponto que levou a Selic a 13,75% ao ano. O comitê aponta moderação gradual da atividade e inflação abaixo do teto de 4,5%, mas ainda acima da meta de 3%. Sem sinalização para a próxima reunião, o mercado precifica cerca de 57% de chance de novo corte em novembro.
Principais pontos
- A Selic está em 13,75% ao ano desde 16 de setembro, após o quinto corte seguido de 0,25 ponto.
- O ciclo começou em abril e já derrubou a taxa de 14,75% para 13,75% — um ponto percentual inteiro.
- A ata diz que a inflação cheia e os núcleos desaceleraram e ficaram abaixo do teto de 4,5%, mas seguem acima da meta de 3%.
- O comitê repete que expectativas desancoradas exigem restrição monetária maior e por mais tempo.
- As opções de Copom na B3 apontam cerca de 57% de probabilidade de mais um corte de 0,25 ponto em novembro.
O que a ata efetivamente disse
A ata é o documento em que o Comitê de Política Monetária explica, seis dias úteis depois, o raciocínio por trás da decisão. Desta vez ela detalha o corte aprovado em 16 de setembro, ao fim da 281ª reunião: uma redução de 0,25 ponto percentual, por unanimidade, que levou a taxa básica de 14% para 13,75% ao ano.
O tom é de confirmação, não de novidade. O comitê descreve uma economia em moderação gradual, com mercado de trabalho ainda aquecido e crédito desacelerando sob política monetária restritiva. É a mesma leitura do comunicado, agora com o detalhamento do debate — e sem a frase que o mercado mais procurava, uma indicação explícita do próximo passo.
Por que o Copom continua cauteloso mesmo cortando
A aparente contradição — cortar juros e ao mesmo tempo falar em restrição — se resolve no conceito de expectativas desancoradas. Expectativa ancorada significa que o mercado acredita que a inflação vai convergir para a meta de 3%. Quando isso não acontece, o Banco Central precisa manter o juro mais alto e por mais tempo do que a inflação corrente sozinha justificaria.
É exatamente o que a ata afirma: em ambiente de expectativas desancoradas exige-se restrição monetária maior e mais prolongada do que seria apropriado em outras circunstâncias. Ou seja, o corte não é o começo de um afrouxamento agressivo — é um ajuste dentro de uma política que o próprio comitê continua classificando como restritiva.
O quadro de inflação que o comitê enxerga
O documento registra que tanto a inflação cheia quanto a média das medidas de núcleo desaceleraram nas divulgações mais recentes e se situaram abaixo do limite superior do intervalo de tolerância, de 4,5%. É uma melhora relevante — mas o comitê faz questão de completar a frase: seguem acima da meta central, de 3%.
O dado mais recente reforça a leitura. O IPCA de agosto, divulgado em 11 de setembro, veio negativo em 0,32% no mês e fechou o acumulado de doze meses em 4,22%, ante 4,44% no mês anterior. Dentro do teto, portanto, e em queda — mas ainda a 1,22 ponto da meta. A prévia de setembro, o IPCA-15 que sai nesta sexta, é o próximo teste.
Onde a Selic está no ciclo
Vale situar o corte no movimento maior. A sequência de reduções começou em abril e já são cinco cortes consecutivos de 0,25 ponto cada, o que retirou exatamente um ponto percentual da taxa básica.
| Momento | Selic | Movimento |
|---|---|---|
| Antes do ciclo | 14,75% a.a. | — |
| Após 4 cortes | 14,00% a.a. | −0,75 ponto |
| Decisão de 16/09 | 13,75% a.a. | −0,25 ponto |
| Acumulado no ciclo | — | −1,00 ponto |
É um ritmo deliberadamente lento. Um ponto percentual em cinco reuniões contrasta com ciclos anteriores, em que o Banco Central chegou a cortar 0,50 ou 0,75 ponto por encontro. A cadência de 0,25 é, ela mesma, a mensagem de cautela. Acompanhamos o detalhe em quanto a Selic já caiu no ciclo.
O que o mercado passou a apostar para novembro
Sem sinalização do comitê, a leitura passa a vir dos preços. As opções de Copom negociadas na B3 — contratos em que investidores apostam no nível da Selic após cada reunião — indicam cerca de 57% de probabilidade de mais um corte de 0,25 ponto em novembro.
Cinquenta e sete por cento é um número que merece leitura honesta: é inclinação, não consenso. Significa que pouco mais da metade do dinheiro aposta no corte e quase metade aposta em manutenção. Quem quiser entender como esse número é construído pode ler nosso guia sobre o que são as opções de Copom. O boletim Focus já passou a projetar 13,50%, o que embute exatamente mais uma redução.
O que isso significa para o seu dinheiro
Para quem investe em renda fixa pós-fixada, cada corte reduz o rendimento futuro. Um CDB que paga 100% do CDI rendia sobre uma taxa de 14,75% no começo do ciclo; agora rende sobre 13,75%. A diferença parece pequena ao mês e se acumula ao ano — e é o motivo pelo qual parte dos investidores começa a olhar para títulos prefixados, que travam a taxa de hoje.
Para quem toma crédito, o efeito é mais lento e menos visível. O juro do cartão, do cheque especial e do financiamento não acompanha a Selic na mesma proporção nem no mesmo mês: o spread bancário responde por boa parte do custo final. Cortes na taxa básica ajudam na margem, mas não transformam uma dívida cara em barata. Você acompanha a taxa atualizada em nossa página da Selic.
O que ainda não se sabe
A ata não antecipa a decisão de novembro, e o próprio comitê evitou qualquer compromisso com o próximo passo. Dois fatores concentram a incerteza: o comportamento das expectativas de inflação nas próximas semanas e o cenário externo, em que o Federal Reserve voltou a subir juros em setembro — movimento que pressiona moedas emergentes e limita o espaço de corte por aqui.
Há ainda o calendário eleitoral, que costuma elevar o prêmio de risco exigido nos ativos brasileiros. Nada disso está escrito na ata em forma de alerta explícito, mas está no pano de fundo do “por mais tempo” que o comitê repete. A próxima leitura oficial do quadro virá com o Relatório de Política Monetária.
Dados conforme a ata do Copom divulgada em 22 de setembro de 2026 e o IPCA do IBGE de agosto. Probabilidades implícitas em opções variam ao longo do dia. Conteúdo informativo, sem recomendação de investimento.
Perguntas frequentes
Qual a Selic hoje depois da ata do Copom?
A Selic está em 13,75% ao ano desde 16 de setembro de 2026, quando o Copom aprovou por unanimidade um corte de 0,25 ponto percentual. A ata divulgada em 22 de setembro detalha essa decisão, mas não altera a taxa.
O Copom vai cortar a Selic de novo em novembro?
O comitê não sinalizou o próximo passo. As opções de Copom negociadas na B3 apontam cerca de 57% de probabilidade de um novo corte de 0,25 ponto em novembro — inclinação majoritária, mas longe de consenso.
Por que o Banco Central corta juros e diz que a política é restritiva?
Porque as expectativas de inflação seguem acima da meta de 3%. Nesse cenário, o comitê entende que precisa manter o juro alto por mais tempo do que a inflação corrente justificaria, mesmo enquanto faz cortes graduais.
Quanto a Selic já caiu neste ciclo?
Um ponto percentual inteiro. O ciclo começou em abril de 2026 e soma cinco cortes consecutivos de 0,25 ponto, levando a taxa de 14,75% para os atuais 13,75% ao ano.
A inflação já está dentro da meta?
Não. O IPCA acumulado em doze meses fechou agosto em 4,22%, abaixo do teto de tolerância de 4,5%, mas ainda acima da meta central de 3%. É exatamente essa diferença que sustenta o discurso de cautela do Copom.



