O dado mais revelador do balanço da Gerdau não é o lucro de R$ 1,46 bilhão. É a origem dele: a operação na América do Norte gerou Ebitda ajustado de R$ 2,6 bilhões dos R$ 3,43 bilhões consolidados — cerca de três quartos do total. A maior siderúrgica brasileira depende cada vez menos do Brasil.
No segundo trimestre de 2026, a operação da Gerdau na América do Norte respondeu por R$ 2,6 bilhões dos R$ 3,43 bilhões de Ebitda ajustado consolidado — cerca de 76% do total. A companhia é brasileira, listada na B3, mas gera a maior parte do resultado fora do país, beneficiada por demanda favorável e por tarifas de importação que protegem o produtor local americano.
Principais pontos
- A América do Norte gerou R$ 2,6 bilhões dos R$ 3,43 bilhões de Ebitda ajustado do 2T26.
- Isso equivale a cerca de 76% do resultado operacional consolidado.
- A operação americana é favorecida por tarifas de importação sobre aço de terceiros.
- No Brasil, a companhia enfrenta concorrência do aço chinês e cortou 22% do investimento previsto para 2026.
- Para o acionista, isso torna a ação parcialmente uma aposta em dólar e na economia dos EUA.
Uma empresa brasileira com resultado americano
A Gerdau é listada na B3, tem sede no Brasil e é tratada por muitos investidores como termômetro da indústria nacional. O balanço do segundo trimestre mostra que essa leitura ficou desatualizada: três de cada quatro reais de geração operacional vieram de fora.
Não é anomalia de um trimestre. A companhia construiu ao longo de anos uma operação relevante nos Estados Unidos e no Canadá, e o ambiente atual amplifica a diferença entre as duas pontas do negócio — uma protegida, outra exposta.
Por que a operação americana ganha mais
Duas razões se somam. A primeira é demanda: a atividade de construção e infraestrutura na América do Norte sustenta preço melhor para vergalhão e perfis estruturais, produtos em que a Gerdau é forte naquele mercado.
A segunda é proteção comercial. Tarifas de importação encarecem o aço que entra nos Estados Unidos, o que cria um piso de preço para quem produz lá dentro. O produtor local não precisa competir com aço vendido a preço de escala global — vantagem que a operação brasileira simplesmente não tem.
| Ebitda ajustado 2T26 | Valor | Participação |
|---|---|---|
| América do Norte | R$ 2,6 bilhões | ≈ 76% |
| Demais operações | ≈ R$ 0,83 bilhão | ≈ 24% |
| Consolidado | R$ 3,43 bilhões | 100% |
O contraste com o Brasil
Aqui a situação é inversa. A operação brasileira enfrenta a concorrência do aço chinês importado a preços que refletem escala global, e não custo local — e isso funciona como um teto de preço involuntário: subir acima do importado significa perder cliente.
A resposta da companhia foi eloquente: cortou quase 22% do investimento previsto para 2026. Empresa que reduz capex num momento de margem boa está dizendo que não vê retorno em ampliar capacidade aqui. Tratamos disso em Gerdau e o teste do aço chinês na margem.
O que isso muda para quem compra a ação
Muda a natureza do investimento. Comprar Gerdau hoje é, em boa medida, comprar exposição à economia americana e ao dólar — não apenas à indústria brasileira.
Isso tem uma consequência prática frequentemente ignorada: com a maior parte do Ebitda em moeda estrangeira, real mais fraco melhora o resultado consolidado quando convertido. E real mais forte piora. O dólar hoje ronda R$ 5,13. Quem tem Gerdau em carteira já tem alguma proteção cambial embutida, mesmo sem ter escolhido isso. O conceito está em como investir em dólar para proteger patrimônio.
O risco que vem com a concentração
Depender de um mercado é sempre risco, ainda que ele esteja indo bem. Se a demanda americana por construção desacelerar, ou se as tarifas de importação forem revistas, a fonte de três quartos do resultado fica exposta de uma vez.
Política comercial muda por decisão, não por ciclo econômico — e muda rápido. Um investidor que compra a ação pela margem atual precisa saber que essa margem tem componente regulatório, não só operacional. Isso é diferente de vantagem construída por eficiência, que ninguém tira com uma canetada.
Como avaliar uma cíclica com essa geografia
O erro clássico é olhar o preço sobre lucro dos últimos doze meses. Com o lucro 70% maior, o múltiplo cai automaticamente e a ação “fica barata” no papel. Quando o ciclo virar, o lucro normaliza e o mesmo múltiplo fica caro sem o preço ter mudado.
Para essa empresa, três perguntas valem mais: qual a margem no pior trimestre do ciclo, quanto do resultado se mantém se as tarifas americanas mudarem, e a dívida permite atravessar dois anos ruins sem diluir acionista? Os conceitos estão em P/L e P/VP e em ROE, ROIC e margem líquida.
O que observar nos próximos trimestres
A participação da América do Norte no Ebitda é o número a seguir. Se subir, a tese de “empresa brasileira” se enfraquece mais; se cair porque o Brasil reagiu, é sinal de que a operação local voltou a gerar margem.
Vale acompanhar também o preço internacional da tonelada de aço, o volume de importação chinesa no Brasil e o câmbio. Os números completos do trimestre estão em Gerdau lucra R$ 1,46 bilhão com margem de 19,2%, e o dividendo aprovado em dividendos de R$ 0,23 por ação. Compare com pares em comparar ativos.
Conteúdo informativo, sem recomendação de investimento. A participação de 76% é calculada sobre os valores de Ebitda ajustado divulgados pela companhia para o 2T26 e pode variar conforme a abertura por segmento no relatório completo.
Perguntas frequentes
Quanto do resultado da Gerdau vem dos Estados Unidos?
No segundo trimestre de 2026, a operação da América do Norte gerou Ebitda ajustado de R$ 2,6 bilhões dos R$ 3,43 bilhões consolidados — cerca de 76% do total.
Por que a operação americana da Gerdau é mais rentável?
Por demanda favorável em construção e infraestrutura e por tarifas de importação que encarecem o aço estrangeiro nos Estados Unidos, criando um piso de preço para o produtor local.
Comprar Gerdau é investir na indústria brasileira?
Só em parte. Com três quartos do Ebitda vindo da América do Norte, a ação é também uma exposição à economia americana e ao dólar, não apenas à indústria nacional.
Dólar mais alto ajuda ou prejudica a Gerdau?
Ajuda o resultado consolidado. Com a maior parte do Ebitda gerado em moeda estrangeira, real mais fraco eleva o valor convertido em reais; real mais forte reduz.
Qual o principal risco dessa concentração?
Depender de um mercado. Se a demanda americana desacelerar ou as tarifas de importação forem revistas, a fonte de três quartos do resultado fica exposta — e política comercial muda por decisão, não por ciclo.



