Antes de pedir recuperação extrajudicial, a Braskem já havia atravessado uma linha que poucas companhias listadas cruzam: a Fitch rebaixou seu rating de ‘C’ para ‘RD’ — inadimplência restrita — porque a empresa não pagou juros e o prazo de carência expirou. A S&P Global também classificou a situação como default. E o não pagamento foi decisão deliberada.
Em meados de agosto de 2026, a Fitch rebaixou o rating global da Braskem de ‘C’ para ‘RD’, inadimplência restrita, após a companhia confirmar o não pagamento de juros e o vencimento do período de carência. A S&P Global também classificou a situação como default. O passivo total apurado era de US$ 10,3 bilhões, com caixa de US$ 1 bilhão em junho.
Principais pontos
- A Fitch rebaixou o rating global da Braskem de ‘C’ para ‘RD’, inadimplência restrita.
- O motivo foi o não pagamento de juros após o vencimento do período de carência.
- O não pagamento foi decisão deliberada, para preservar liquidez durante a negociação.
- A S&P Global também classificou a situação como default.
- A agência alertou que a recuperação pode levar a nota à categoria ‘D’.
O que significa ‘RD’
Na escala de crédito, as letras do fim do alfabeto não são apenas “risco alto” — algumas descrevem um fato já consumado. É o caso de ‘RD’, sigla de Restricted Default, ou inadimplência restrita.
Ela indica que o emissor já deixou de honrar um compromisso — mas que a inadimplência é limitada a parte das obrigações, sem que a empresa tenha entrado em falência ou encerrado suas operações. Não é previsão de que algo pode dar errado; é registro de que algo já deu. A diferença em relação a ‘C’, a nota anterior da companhia, é essa: ‘C’ sinaliza inadimplência iminente, ‘RD’ sinaliza inadimplência ocorrida. O contexto da escala completa está em como ler rating de AAA a junk.
O que aconteceu na prática
A decisão da agência veio depois de a Braskem confirmar que houve inadimplência em pagamentos de juros programados e que o período de carência aplicável expirou sem regularização.
Esse detalhe importa. Contratos de dívida costumam prever um prazo de tolerância — normalmente alguns dias — entre a data do vencimento e a caracterização formal do default. Enquanto ele corre, ainda há chance de pagar sem consequência contratual. Quando expira, o gatilho é acionado. Foi o que ocorreu.
Por que “deliberado” muda a leitura
Aqui está o ponto mais relevante e menos comentado: o não pagamento não foi por falta de dinheiro na conta. Foi decisão deliberada — a companhia optou por preservar liquidez de caixa enquanto negociava uma solução mais ampla com credores.
Os números sustentam essa leitura. A Braskem tinha US$ 1 bilhão em caixa em junho de 2026, contra passivo total de US$ 10,3 bilhões na apuração da agência. Ou seja: havia dinheiro para pagar aquela parcela específica de juros; a empresa escolheu segurá-lo. É uma escolha estratégica defensável do ponto de vista da administração — e péssima do ponto de vista de quem precisa negociar com ela depois, como mostrou o impasse com os bondholders.
| Elemento | Situação |
|---|---|
| Rating anterior (Fitch) | ‘C’ |
| Rating após o rebaixamento | ‘RD’ — inadimplência restrita |
| Motivo | Não pagamento de juros; carência expirada |
| Natureza do não pagamento | Decisão deliberada |
| Passivo total apurado | US$ 10,3 bilhões |
| Caixa em junho de 2026 | US$ 1 bilhão |
| S&P Global | Também classificou como default |
| Risco apontado adiante | Categoria ‘D’ |
Duas agências, mesma conclusão
Não foi avaliação isolada. Além do movimento da Fitch, a S&P Global também levou a companhia à condição de default. Quando duas agências independentes chegam ao mesmo ponto, a leitura deixa de ser opinião de uma casa e passa a ser consenso técnico.
Isso tem consequência prática além do simbolismo. Muitos fundos institucionais e planos de previdência operam sob mandatos que proíbem carregar papéis abaixo de determinado nível de rating. Rebaixamento para território de default força vendas por regra, não por convicção — e é uma das razões pelas quais o preço dos títulos afunda mais rápido do que a deterioração do negócio justificaria.
A proteção judicial que veio em paralelo
Houve um contrapeso importante no mesmo período. Um juízo de São Paulo concedeu suspensão de todas as execuções e penhoras por parte dos credores convidados a participar de mediação, pelo prazo de 60 dias.
Ou seja: a empresa entrou em default, mas ganhou uma janela em que os credores não podiam executar a dívida nem penhorar bens. Foi essa proteção que viabilizou a negociação que desembocou no pedido de recuperação extrajudicial de US$ 10,9 bilhões. Vale notar a divergência de valores entre as duas apurações — US$ 10,3 bilhões na avaliação de rating e US$ 10,9 bilhões no pedido — reflexo de perímetros e datas diferentes.
O que vem depois de ‘RD’
A própria agência sinalizou o próximo degrau: alertou que uma recuperação judicial ou extrajudicial poderia levar a nota à categoria ‘D’. Na escala, ‘D’ representa inadimplência ampla, não mais restrita a parte das obrigações.
Como a companhia protocolou a extrajudicial em 24 de agosto, esse é o cenário que se materializa. E aqui vale a nuance: para o investidor, o rebaixamento a ‘D’ seria mais confirmação do que novidade — o mercado já precifica a situação. O que ainda não está precificado é o resultado da negociação: quanto os credores aceitarão receber, em que prazo e se haverá conversão de dívida em ações.
O que isso significa para o investidor
Três leituras. Primeira, sobre rating como ferramenta: notas na faixa de default não são alerta antecipado — são registro do que já ocorreu. Quem usa rating para gerir risco precisa acompanhar a perspectiva e os rebaixamentos graduais, não esperar chegar à letra final.
Segunda, sobre crédito privado: debênture e bond não têm cobertura do FGC. Quando o emissor entra em default, a perda é de principal, não de rentabilidade — motivo pelo qual diversificação por emissor é obrigatória nessa classe.
Terceira, sobre ação: uma companhia em default deliberado está sinalizando que priorizará caixa sobre compromissos. Isso preserva a operação, mas transfere o custo para credores e, na etapa seguinte, para acionistas — via diluição. Os sinais desse tipo de deterioração aparecem no balanço antes de chegarem ao rating, e o roteiro está em como identificar risco numa empresa da carteira.
Conteúdo informativo, sem recomendação de investimento. Informações de rating se referem às decisões divulgadas em meados de agosto de 2026 e podem ser revistas pelas agências.
Perguntas frequentes
O que significa a nota 'RD' da Fitch?
RD é a sigla de Restricted Default, ou inadimplência restrita. Indica que o emissor já deixou de honrar um compromisso, mas que a inadimplência é limitada a parte das obrigações, sem falência ou encerramento das operações.
Por que a Braskem foi rebaixada?
Porque confirmou inadimplência em pagamentos de juros programados e o período de carência aplicável expirou sem regularização. A S&P Global também classificou a situação como default.
A empresa não tinha dinheiro para pagar?
Tinha. A Braskem registrava US$ 1 bilhão em caixa em junho de 2026. O não pagamento foi decisão deliberada, para preservar liquidez enquanto negociava uma solução mais ampla com os credores.
Por que rebaixamento derruba tanto o preço dos títulos?
Porque muitos fundos institucionais e planos de previdência têm mandatos que proíbem carregar papéis abaixo de determinado rating. O rebaixamento força vendas por regra, não por convicção, o que acelera a queda do preço.
O que vem depois da nota 'RD'?
A agência alertou que uma recuperação judicial ou extrajudicial poderia levar a nota à categoria ‘D’, que representa inadimplência ampla. Como a companhia protocolou a extrajudicial em 24 de agosto, esse é o cenário que se materializa.



