Numa reestruturação, existe um mecanismo que parece pequeno e é o que mais trava negociação: a capitalização de juros. Em vez de pagar os juros em dinheiro, a empresa os soma ao principal. Para ela, é oxigênio. Para o credor, é receber zero por anos, com o valor a receber crescendo apenas no papel — e foi um dos pontos que os credores da Braskem rejeitaram.
Capitalização de juros é o mecanismo em que os juros devidos deixam de ser pagos em dinheiro e passam a ser somados ao saldo principal da dívida. A empresa preserva caixa no curto prazo, mas o valor devido cresce e a conta é empurrada para o futuro. Para o credor, significa suspensão total de recebimento durante o período capitalizado.
Principais pontos
- Na capitalização, os juros são somados ao principal em vez de pagos em dinheiro.
- A empresa preserva caixa imediato, mas a dívida total cresce.
- O credor deixa de receber qualquer valor durante o período capitalizado.
- Como os juros passam a incidir sobre um saldo maior, o efeito é composto.
- No mercado internacional, o mecanismo é conhecido como pagamento em espécie, ou PIK.
Como funciona na prática
Uma dívida tem duas partes: o principal, que é o valor emprestado, e os juros, a remuneração periódica de quem emprestou. No arranjo normal, a empresa paga os juros em dinheiro nas datas combinadas e devolve o principal no vencimento.
Na capitalização de juros, esse pagamento periódico deixa de existir. O valor que deveria ser pago é incorporado ao principal — a dívida cresce, e nada sai do caixa. No mercado internacional, esse desenho tem nome próprio: PIK, sigla de payment in kind, pagamento em espécie.
Por que a empresa quer
Para uma companhia em crise de liquidez, é a medida mais eficaz disponível. Ela não reduz a dívida, não melhora a operação e não conserta nada estruturalmente — mas libera caixa imediatamente, e caixa é o que separa continuar operando de parar.
Foi exatamente esse o pedido da Braskem. A proposta apresentada aos credores previa capitalização integral dos juros entre julho de 2026 e dezembro de 2028 — cerca de dois anos e meio sem desembolso. Para uma empresa que já havia deixado de pagar juros deliberadamente para preservar liquidez, formalizar essa suspensão é o objetivo central da negociação.
Por que o credor recusa
Do outro lado, o mecanismo é o pior dos mundos. O credor deixa de receber qualquer valor durante o período — não é receber menos, é receber nada. E o que ele ganha em troca é um número maior no papel, devido por uma empresa cuja capacidade de pagamento é justamente o que está em dúvida.
Foi o que motivou a reação dos bondholders da Braskem, que classificaram a proposta como “totalmente insatisfatória”. Some-se o outro item do pacote — redução de 2 pontos percentuais na taxa de juros — e a conta fica clara: o credor esperaria mais cinco anos, receberia juros menores e não veria dinheiro por dois anos e meio, sem qualquer compensação em troca.
A aritmética que quase ninguém faz
O efeito de dois anos e meio de capitalização é maior do que a intuição sugere, porque ele compõe. Veja o que acontece com uma dívida de R$ 1.000 a 10% ao ano:
| Período | Juros pagos em dinheiro | Juros capitalizados |
|---|---|---|
| Início | R$ 1.000 | R$ 1.000 |
| Após 1 ano | R$ 1.000 | R$ 1.100 |
| Após 2 anos | R$ 1.000 | R$ 1.210 |
| Após 3 anos | R$ 1.000 | R$ 1.331 |
| Após 5 anos | R$ 1.000 | R$ 1.611 |
Na coluna da esquerda, o credor recebeu R$ 100 por ano e o principal ficou igual. Na direita, ele não recebeu nada e a dívida cresceu 61% em cinco anos. São os juros compostos trabalhando — a favor de quem empresta, em teoria. O problema é que valor no papel só vale se for pago.
Quando o credor aceita
Nem sempre é recusa. Capitalização de juros é aceita quando vem acompanhada de contrapartida, e as três mais comuns são: taxa maior no período capitalizado, para compensar o risco adicional; garantia real, dando ao credor prioridade sobre um ativo específico; ou participação societária, via conversão de parte da dívida em ações.
O padrão internacional em dívida PIK é justamente esse: quem aceita não receber juros em dinheiro cobra mais por isso, não menos. Foi essa inversão que os credores da Braskem apontaram ao dizer que reduzir o cupom seria algo “inédito” em reestruturações corporativas — pedir capitalização e redução de taxa ao mesmo tempo contraria a lógica do instrumento.
Onde mais isso aparece
A capitalização de juros não é exclusividade de empresa em crise, e vale reconhecê-la em outros contextos. Ela existe, por exemplo, em financiamento estudantil, em que os juros do período de carência podem ser incorporados ao saldo, e em renegociação de dívida de pessoa física, quando a parcela renegociada embute juros não pagos.
É também o mecanismo silencioso do rotativo do cartão de crédito: quem paga o mínimo tem os juros do saldo incorporados à fatura seguinte, e passa a pagar juros sobre juros. A diferença é apenas de escala — o desenho é idêntico ao que a Braskem propôs aos bondholders.
O que isso significa para o investidor
Três leituras práticas. Primeira, ao avaliar um plano de reestruturação: procure se há capitalização de juros e por quanto tempo. Um plano que suspende o pagamento por anos sem elevar a taxa ou dar garantia é um plano que os credores tendem a rejeitar — e rejeição significa incerteza prolongada, o pior cenário para o acionista.
Segunda, ao analisar balanço: dívida que cresce sem novos empréstimos é sinal de capitalização em curso. Vale conferir se a despesa financeira está sendo paga ou incorporada, item que integra o checklist de risco.
Terceira, e mais próxima do seu bolso: se você tem dívida, evitar capitalização é prioridade. Pagar ao menos os juros correntes impede que o saldo cresça — é a diferença entre uma dívida estável e uma que se multiplica sozinha. Com a Selic em 14% ao ano, essa diferença se acumula rápido.
Conteúdo informativo, sem recomendação de investimento. Os exemplos numéricos são ilustrativos. Condições de reestruturação variam por contrato e plano.
Perguntas frequentes
O que é capitalização de juros?
É o mecanismo em que os juros devidos deixam de ser pagos em dinheiro e passam a ser somados ao saldo principal da dívida. A empresa preserva caixa, mas o valor devido cresce. No mercado internacional é chamado de PIK, ou pagamento em espécie.
Por que a empresa quer capitalizar os juros?
Porque libera caixa imediatamente, e caixa é o que separa continuar operando de parar. Não reduz a dívida nem melhora a operação — apenas empurra o desembolso para o futuro. A Braskem pediu capitalização integral entre julho de 2026 e dezembro de 2028.
Por que o credor rejeita esse mecanismo?
Porque deixa de receber qualquer valor durante o período — não é receber menos, é receber nada. Em troca, ganha um número maior no papel, devido por uma empresa cuja capacidade de pagamento é justamente o que está em dúvida.
Quando o credor aceita capitalização de juros?
Quando há contrapartida: taxa maior no período capitalizado, garantia real sobre um ativo, ou participação societária via conversão de dívida em ações. O padrão em dívida PIK é cobrar mais por não receber em dinheiro, não menos.
Isso acontece com pessoa física?
Sim. O rotativo do cartão de crédito funciona assim: quem paga o mínimo tem os juros incorporados à fatura seguinte e passa a pagar juros sobre juros. Também aparece em financiamento estudantil e em renegociação de dívidas.



