Por trás do lucro melhor que o esperado do Banco do Brasil, um número seguiu piorando: a inadimplência do agronegócio acima de 30 dias subiu de 7,35% para 8,97% em um trimestre. A perda esperada da carteira rural passou de R$ 40,6 bilhões para R$ 43,7 bilhões — quarta alta consecutiva.
No balanço do segundo trimestre de 2026, a inadimplência acima de 30 dias da carteira de agronegócio do Banco do Brasil subiu de 7,35% para 8,97%, e a perda esperada avançou de R$ 40,6 bilhões para R$ 43,7 bilhões, no quarto trimestre consecutivo de aumento. A inadimplência total do banco acima de 90 dias chegou a 5,61%, contra 3,96% um ano antes.
Principais pontos
- A inadimplência acima de 30 dias do agro passou de 7,35% no 1T26 para 8,97% no 2T26.
- A perda esperada da carteira rural subiu de R$ 40,6 bilhões para R$ 43,7 bilhões.
- É o quarto trimestre consecutivo de aumento nesse indicador.
- A inadimplência total acima de 90 dias do banco chegou a 5,61%, ante 3,96% um ano antes.
- Mesmo assim, a carteira de agronegócio voltou a crescer, com avanço de 4,1% no trimestre.
O indicador que não virou
O lucro do trimestre veio acima do esperado e o ROE subiu, mas a carteira que originou todo o problema continua se deteriorando. A inadimplência acima de 30 dias no agronegócio saltou de 7,35% para 8,97% em três meses — um avanço de mais de 1,6 ponto percentual.
A perda esperada, medida que estima quanto da carteira provavelmente não será recuperado, subiu de R$ 40,6 bilhões para R$ 43,7 bilhões. É a quarta alta consecutiva, o que caracteriza tendência, não oscilação.
Por que 30 dias importa mais que 90
Existe uma razão para acompanhar a inadimplência de curto prazo quando se quer antecipar o que vem pela frente. O atraso acima de 30 dias é o primeiro sinal de dificuldade; o de 90 dias é a confirmação de que o problema se consolidou.
Na prática, a inadimplência de 30 dias hoje tende a virar a de 90 dias dos próximos trimestres. Com o indicador do agro em 8,97%, a leitura é de que a pressão sobre as provisões deve continuar — mesmo que o lucro trimestral tenha melhorado. O indicador consolidado do banco acima de 90 dias já subiu para 5,61%, contra 3,96% um ano antes.
| Indicador | 1T26 | 2T26 |
|---|---|---|
| Inadimplência agro (acima de 30 dias) | 7,35% | 8,97% |
| Perda esperada da carteira rural | R$ 40,6 bi | R$ 43,7 bi |
| Inadimplência total (acima de 90 dias) | 5,05% | 5,61% |
| ROE | 7,3% | 8,3% |
O que está acontecendo no campo
A deterioração não é um problema de gestão bancária, e sim de rentabilidade do produtor. Margens apertadas em algumas culturas, endividamento acumulado em anos de investimento pesado e custos de insumos elevados formaram uma combinação que reduziu a capacidade de pagamento.
Some-se a isso o aumento expressivo de pedidos de recuperação judicial no setor nos últimos anos. Quando o produtor entra em recuperação, o crédito é congelado, o banco provisiona e a recuperação do valor se arrasta — o que explica por que a perda esperada sobe mesmo quando a inadimplência formal ainda não migrou para faixas mais longas.
O paradoxo de voltar a emprestar
Aqui está o dado que mais chama atenção: mesmo com a inadimplência subindo, a carteira do agronegócio cresceu 4,1% no trimestre, acima do intervalo de −2% a +2% que o próprio banco projetava.
Isso não é contradição necessariamente. A tese da administração é que o crédito novo, originado sob um modelo mais rigoroso de garantias, tem qualidade diferente do crédito antigo que hoje gera a inadimplência. Se estiver certa, a carteira vai melhorando à medida que a safra nova substitui a velha.
Se estiver errada, o banco estará ampliando a exposição justamente ao setor que já derrubou seus resultados. É a aposta central do caso, e ela só se resolve com o tempo — provavelmente dois ou três trimestres.
O que observar nos próximos balanços
Três indicadores dirão se a virada aconteceu. O primeiro é a própria inadimplência de 30 dias do agro: estabilizar já seria notícia; cair seria a confirmação.
O segundo é o custo de crédito, que somou R$ 18,5 bilhões no trimestre, com alta de 16,1% em doze meses. Sua desaceleração libera lucro diretamente, porque provisão sai da última linha.
O terceiro é a qualidade da safra nova, que aparece na inadimplência das operações originadas nos últimos trimestres — informação que o banco costuma detalhar nas apresentações a analistas. O panorama geral do balanço está em o resultado do 2T26.
O que isso significa para o investidor
A lição que atravessa este caso vale para qualquer banco: o lucro é o resultado, a inadimplência é o indicador antecedente. Um trimestre com lucro acima do esperado e inadimplência em alta descreve uma instituição que está compensando o problema, não resolvendo.
Para quem investe em bancos, acompanhar carteira por carteira revela riscos que o número consolidado esconde — a inadimplência total de 5,61% dilui um agro em 8,97%. E vale lembrar que concentração setorial é escolha estratégica: os quatro grandes bancos operam sob a mesma economia e a mesma Selic, e a diferença de resultado vem de onde cada um decidiu emprestar. Vale ler a comparação entre eles e análise fundamentalista.
Conteúdo informativo, sem recomendação de investimento. Dados do balanço do segundo trimestre de 2026 do Banco do Brasil, divulgado em 12 de agosto de 2026.
Perguntas frequentes
Qual a inadimplência do agronegócio no Banco do Brasil?
A inadimplência acima de 30 dias da carteira de agronegócio subiu de 7,35% no primeiro trimestre para 8,97% no segundo trimestre de 2026, no quarto avanço consecutivo.
O que é perda esperada da carteira?
É a estimativa de quanto do crédito concedido provavelmente não será recuperado. No agro do Banco do Brasil, passou de R$ 40,6 bilhões para R$ 43,7 bilhões em um trimestre.
Por que acompanhar a inadimplência de 30 dias?
Porque é indicador antecedente: o atraso de 30 dias hoje tende a virar o de 90 dias nos trimestres seguintes. O de 90 dias apenas confirma um problema que já se consolidou.
Se a inadimplência sobe, por que o banco voltou a emprestar ao agro?
A carteira cresceu 4,1% porque a administração avalia que o crédito novo, originado sob modelo mais rigoroso de garantias, tem qualidade diferente do antigo. É a aposta central do caso e leva trimestres para se confirmar.
O lucro melhor significa que o problema acabou?
Não. O lucro de R$ 3,9 bilhões veio acima do esperado, mas a inadimplência total subiu para 5,61% e a do agro, para 8,97%. O banco está compensando a pressão, não eliminando a causa.



