No mesmo trimestre, sob a mesma economia e a mesma Selic, o BTG Pactual entregou ROE de 26,7% e o Banco do Brasil, 8,3%. Para cada R$ 100 de capital próprio, um devolveu R$ 26,70 ao ano e o outro, R$ 8,30. A diferença não é sorte — está em três escolhas.
No segundo trimestre de 2026, o retorno sobre o patrimônio variou de 26,7% no BTG Pactual a 8,3% no Banco do Brasil, passando por 24,3% do Itaú, 16,2% do Bradesco e 12,5% do Santander. A diferença se explica pela composição da carteira de crédito, pelo peso das receitas que não dependem de emprestar dinheiro e pela obrigação de atuar em segmentos de política pública.
Principais pontos
- O ROE do BTG Pactual foi de 26,7% no 2T26, contra 8,3% do Banco do Brasil.
- A diferença principal está na composição da carteira: o BB concentra crédito rural, hoje deteriorado.
- A inadimplência do agro no BB acima de 30 dias chegou a 8,97%, e a total acima de 90 dias, a 5,61%.
- Bancos com forte receita de serviços dependem menos do risco de crédito para gerar resultado.
- Banco público tem obrigações de política pública que um banco de investimento não tem.
O que o ROE mede
Antes da comparação, vale entender o indicador. O retorno sobre o patrimônio líquido divide o lucro pelo capital dos acionistas: mede quanto o banco consegue gerar com o dinheiro que os donos deixaram na empresa.
É a métrica central do setor porque banco é um negócio de capital. Todos podem crescer emprestando mais, mas fazê-lo exige capital — e o ROE mostra quem transforma esse capital em lucro com mais eficiência. Um ROE de 26,7% contra 8,3% significa que o primeiro banco precisaria de um terço do capital para gerar o mesmo lucro.
| Banco | ROE no 2T26 |
|---|---|
| BTG Pactual | 26,7% |
| Itaú | 24,3% |
| Bradesco | 16,2% |
| Santander | 12,5% |
| Banco do Brasil | 8,3% |
Razão 1: o que está dentro da carteira
Esta é a explicação mais direta e a que responde por boa parte da diferença. O Banco do Brasil é o maior financiador do agronegócio do país — e essa carteira se deteriorou fortemente.
A inadimplência do agro acima de 30 dias subiu de 7,35% para 8,97% em um trimestre, e a perda esperada da carteira rural passou de R$ 40,6 bilhões para R$ 43,7 bilhões. O custo de crédito do banco somou R$ 18,5 bilhões, alta de 16,1% em doze meses.
Provisão sai diretamente do lucro. Um banco que precisa reservar bilhões para cobrir calote esperado tem menos resultado sobrando, por melhor que seja sua operação nas demais frentes. O detalhamento está em a inadimplência do agronegócio.
Razão 2: ganhar sem emprestar
A segunda diferença é estrutural. O BTG Pactual gera parte relevante da receita em atividades que não envolvem risco de crédito: gestão de recursos de terceiros, assessoria financeira, corretagem, tesouraria.
Essas receitas consomem pouco capital e não geram provisão. Quando funcionam, o ROE sobe rápido. No trimestre, o Corporate Lending do banco teve receita recorde de R$ 2,5 bilhões e o Consumer Finance avançou 37,4%, enquanto o Investment Banking caiu 46,1% — mostrando que essas linhas também oscilam, mas por motivos diferentes de inadimplência.
O Itaú, com ROE de 24,3%, combina as duas coisas: carteira de crédito grande e bem selecionada mais forte geração de receita de serviços. É o modelo que sustenta rentabilidade alta com escala.
Razão 3: o mandato de um banco público
Há um fator que nenhuma análise puramente financeira captura. O Banco do Brasil é uma sociedade de economia mista com obrigações de política pública: opera linhas de crédito rural subsidiado, mantém presença em municípios onde a operação não se paga, e executa programas governamentais.
Isso não é ineficiência — é mandato. Mas significa que parte do balanço está alocada em atividades cuja finalidade não é maximizar retorno ao acionista. Comparar seu ROE com o de um banco de investimento sem considerar essa diferença leva a conclusões incompletas.
O contraponto justo é que o banco também tem vantagens estruturais que os privados não têm, como acesso privilegiado a folhas de pagamento públicas e depósitos judiciais, que barateiam sua captação.
O que isso não significa
Vale ser explícito: ROE alto não é sinônimo de bom investimento. O retorno para quem compra a ação depende do preço pago.
Um banco com rentabilidade de 26,7% negociado a múltiplos elevados pode entregar menos ao acionista que um banco de 8,3% comprado muito barato — especialmente se o segundo estiver em recuperação. A ação do Banco do Brasil fechou a R$ 19,28 em 11 de agosto, perto da mínima de doze meses de R$ 18,87, contra máxima de R$ 27,81 — e o lucro do 2T26 veio acima do consenso, como mostra o balanço do trimestre.
Como usar essa comparação
Para quem analisa bancos, quatro perguntas organizam a avaliação melhor que olhar o ROE isolado.
Onde está o crédito? Carteira concentrada em um setor é risco concentrado. Qual a tendência da inadimplência? O indicador de 30 dias antecipa o de 90 dias e, portanto, as provisões futuras. Quanto da receita não depende de emprestar? Receita de serviços dá estabilidade em ciclos ruins. Qual o preço? Porque a qualidade já pode estar paga.
Aplicadas ao trimestre, essas perguntas explicam por que a temporada separou os bancos em desempenhos tão distintos. Vale ler como ler o balanço de um banco e comparar múltiplos em comparação de ativos.
Conteúdo informativo, sem recomendação de investimento. Indicadores referentes ao segundo trimestre de 2026 conforme divulgações das próprias instituições; cotações citadas referem-se ao fechamento de 11 de agosto de 2026.
Perguntas frequentes
Por que o Banco do Brasil tem ROE tão menor?
Principalmente pela concentração em crédito rural, cuja inadimplência acima de 30 dias chegou a 8,97%, elevando provisões que saem diretamente do lucro. O custo de crédito somou R$ 18,5 bilhões no trimestre.
O que é ROE e por que importa em bancos?
É o retorno sobre o patrimônio líquido, que divide o lucro pelo capital dos acionistas. Como banco é um negócio de capital, o indicador mostra quem transforma esse capital em lucro com mais eficiência.
Ser banco público explica a diferença?
Explica parte. O Banco do Brasil tem obrigações de política pública, como crédito rural subsidiado e presença em municípios deficitários, mas também tem vantagens de captação que os privados não possuem.
Banco com ROE alto é melhor investimento?
Não necessariamente. O retorno ao acionista depende do preço pago pela ação: um banco excelente comprado caro pode render menos que um banco pressionado comprado barato.
Como comparar bancos na prática?
Verificando onde está concentrado o crédito, qual a tendência da inadimplência de curto prazo, quanto da receita não depende de emprestar e, por fim, a que preço a ação está sendo negociada.



