As vendas no varejo subiram 0,5% em junho na comparação com maio — mas o varejo ampliado, que inclui veículos e material de construção, caiu 1,0%. Os dois números saem da mesma pesquisa e contam histórias diferentes sobre o consumo das famílias.
O IBGE divulgou que o volume de vendas do comércio varejista cresceu 0,5% em junho de 2026 sobre maio, com ajuste sazonal, e 2,9% na comparação com junho de 2025. O varejo ampliado, que inclui veículos, motos, partes, peças e material de construção, recuou 1,0% no mês, ainda que tenha avançado 4,9% em doze meses. No ano, ambos acumulam alta de 1,9%.
Principais pontos
- O varejo restrito cresceu 0,5% de maio para junho, com ajuste sazonal.
- O varejo ampliado, que inclui veículos e construção, caiu 1,0% no mesmo período.
- Na comparação anual, o restrito subiu 2,9% e o ampliado, 4,9%.
- No acumulado do ano, ambos avançam 1,9% sobre o mesmo período de 2025.
- Em doze meses, o restrito acumula 1,6% e o ampliado, 0,8%.
Dois indicadores, duas leituras
A Pesquisa Mensal de Comércio do IBGE divulga dois recortes. O varejo restrito cobre supermercados, vestuário, farmácias, móveis, eletrodomésticos, combustíveis e livrarias. O varejo ampliado acrescenta dois segmentos de peso: veículos, motos, partes e peças e material de construção.
Em junho, o restrito subiu 0,5% e o ampliado caiu 1,0%. Como a única diferença entre eles são esses dois segmentos, a conclusão é direta: veículos e construção puxaram para baixo, enquanto o consumo do dia a dia seguiu crescendo.
| Comparação | Varejo restrito | Varejo ampliado |
|---|---|---|
| Junho sobre maio | +0,5% | −1,0% |
| Junho de 2026 sobre junho de 2025 | +2,9% | +4,9% |
| Acumulado no ano | +1,9% | +1,9% |
| Acumulado em 12 meses | +1,6% | +0,8% |
O que explica a queda de veículos e construção
Os dois segmentos têm uma característica em comum: dependem fortemente de crédito. Carro e reforma raramente são pagos à vista, e por isso reagem antes e com mais intensidade ao custo do dinheiro.
Com a Selic em 14,00% ao ano e o financiamento de veículo custando na casa dos 20% e poucos por cento ao ano, a parcela ficou pesada — e a decisão de trocar de carro ou reformar é justamente a que se pode adiar. É o mesmo mecanismo que explica por que o setor imobiliário sente antes o aperto monetário. As contas estão em quanto custa comprar um carro.
A leitura de doze meses inverte
Um detalhe curioso da divulgação: na comparação anual, o ampliado (+4,9%) foi melhor que o restrito (+2,9%). Já no acumulado de doze meses, o ampliado (+0,8%) fica bem atrás do restrito (+1,6%).
Não há contradição. A comparação anual mede junho contra junho e está sujeita a efeitos pontuais — uma base fraca no ano anterior infla o resultado. O acumulado de doze meses suaviza esses efeitos e revela a tendência: o consumo essencial vem crescendo de forma mais consistente que o consumo de bens duráveis. Ao acompanhar dados econômicos, vale sempre olhar mais de uma janela antes de concluir.
O varejo cresce, mas pouco
Uma alta de 1,9% no acumulado do ano parece modesta, e é. Para dimensionar: o IPCA acumula 4,44% em doze meses, e a pesquisa mede volume, não faturamento — ou seja, quantidade de mercadoria vendida, já descontado o efeito dos preços.
Crescer 1,9% em volume significa que as famílias estão comprando um pouco mais de coisas, não apenas pagando mais caro pelas mesmas. É um crescimento real, ainda que discreto para uma economia com desemprego historicamente baixo e massa salarial em expansão.
O que isso diz sobre a economia
O quadro que emerge é de consumo resiliente, mas seletivo. As famílias mantêm o gasto essencial e recuam no que depende de financiamento — comportamento típico de ciclo de juros altos.
Para o Banco Central, é um dado relativamente confortável: varejo crescendo devagar não pressiona a inflação, o que reforça o espaço para continuar cortando a Selic. A ata do Copom divulgada em 11 de agosto, porém, veio em tom cauteloso e não sinalizou sequência automática de cortes, como mostra a leitura do documento.
O que observar daqui em diante
Dois fatores devem influenciar os próximos meses em direções opostas. A favor do consumo joga a queda dos juros — cada corte da Selic vai, com defasagem de meses, barateando o crédito de veículos e construção, os dois segmentos hoje pressionados.
Contra joga a inadimplência, que segue elevada e limita a capacidade de as famílias assumirem novas dívidas. O rotativo do cartão cobrava 54,02% ao ano em junho, e famílias comprometidas com dívida cara não voltam a consumir bens duráveis tão cedo. Vale acompanhar o custo do crédito ao consumidor e o painel de indicadores econômicos.
Conteúdo informativo. Dados da Pesquisa Mensal de Comércio referentes a junho de 2026, conforme séries do IBGE; variações mensais consideram ajuste sazonal e os números estão sujeitos a revisão.
Perguntas frequentes
Quanto cresceram as vendas no varejo em junho de 2026?
O varejo restrito subiu 0,5% sobre maio, com ajuste sazonal, e 2,9% na comparação com junho de 2025. O varejo ampliado caiu 1,0% no mês, mas avançou 4,9% em doze meses.
Qual a diferença entre varejo restrito e ampliado?
O ampliado acrescenta ao restrito dois segmentos: veículos, motos, partes e peças, e material de construção. Como são os únicos itens de diferença, o contraste entre os dois mostra o comportamento desses setores.
Por que veículos e construção caíram?
Porque dependem fortemente de crédito e reagem antes ao custo do dinheiro. Com a Selic em 14,00%, a parcela pesa, e trocar de carro ou reformar são decisões facilmente adiáveis.
O varejo mede faturamento ou quantidade?
Mede volume de vendas, ou seja, quantidade de mercadoria, já descontado o efeito dos preços. Crescer 1,9% no ano significa que as famílias compraram mais coisas, não apenas pagaram mais caro.
O que o dado significa para a Selic?
Varejo crescendo devagar não pressiona a inflação e reforça o espaço para novos cortes. A ata do Copom de agosto, no entanto, veio cautelosa e não sinalizou sequência automática de reduções.



