Quando o Banco Central diz que a economia opera com “baixa ociosidade”, está falando de um número que ninguém consegue medir diretamente: o hiato do produto. No relatório de 24 de setembro de 2026, o BC estimou esse hiato em +0,4% no terceiro trimestre. Entender o conceito explica por que a Selic cai devagar mesmo com o PIB desacelerando.
Hiato do produto é a diferença, em porcentagem, entre o PIB efetivo e o PIB potencial, que é o máximo que a economia produz sem acelerar a inflação. Hiato positivo indica economia acima do potencial e pressão sobre preços; negativo indica folga. O Banco Central estima o hiato brasileiro em +0,4% no terceiro trimestre de 2026 e projeta -0,4% no início de 2028.
Principais pontos
- Hiato do produto é a distância percentual entre o PIB efetivo e o PIB potencial.
- Hiato positivo pressiona a inflação; hiato negativo ajuda a derrubá-la.
- O PIB potencial não é observável e precisa ser estimado por modelos, com grande margem de erro.
- O BC estima o hiato em +0,5% no segundo trimestre e +0,4% no terceiro trimestre de 2026.
- A projeção é de hiato negativo ao longo de 2027, chegando a -0,4% no primeiro trimestre de 2028.
PIB efetivo e PIB potencial
O PIB efetivo é o que o IBGE mede: tudo o que o país produziu num período. O PIB potencial é uma ideia diferente. É quanto a economia conseguiria produzir usando trabalhadores, máquinas e tecnologia em ritmo normal, sem gerar pressão para a inflação subir.
O hiato é a diferença entre os dois, expressa em porcentagem do potencial. Uma analogia ajuda: pense numa fábrica que pode operar com folga até certo ritmo. Acima dele, precisa de hora extra, turno adicional e manutenção adiada. O custo sobe, e na economia inteira esse custo vira preço.
Hiato positivo e hiato negativo
Quando o PIB efetivo está acima do potencial, o hiato é positivo. Empresas têm dificuldade para contratar, salários sobem mais rápido que a produtividade e há espaço para repassar custos. Quando está abaixo, o hiato é negativo: há desemprego acima do normal, máquinas paradas e concorrência por clientes, o que segura os preços.
Hiato perto de zero é o ponto de equilíbrio: a atividade, sozinha, não empurra a inflação para nenhum lado.
| Hiato positivo | Hiato negativo | |
|---|---|---|
| Economia | Acima do potencial | Abaixo do potencial |
| Mercado de trabalho | Apertado, desemprego baixo | Folgado, desemprego alto |
| Uso da capacidade | Alto | Baixo |
| Efeito na inflação | Pressão para cima | Pressão para baixo |
| Resposta típica do BC | Juro mais alto | Espaço para juro menor |
Por que ninguém consegue medir o potencial
O PIB potencial é uma variável não observável. Não existe pesquisa que pergunte quanto a economia poderia produzir. Ele precisa ser estimado, e cada método dá uma resposta diferente: filtros estatísticos que separam tendência de ciclo, funções de produção que somam trabalho, capital e produtividade, e modelos macroeconômicos que inferem a folga pelo comportamento da inflação.
O próprio Banco Central reconhece o problema. No relatório de setembro, escreve que o hiato é “sujeito a elevada incerteza” e que, por isso, combina várias metodologias com julgamento do Copom. As variáveis usadas incluem o PIB, o uso da capacidade da indústria medido pela FGV, a taxa de desemprego do IBGE e o estoque de empregos formais do Caged. O BC também admite que a incerteza pode significar que o hiato atual esteja subestimado.
Os sinais que o BC observa hoje
Como o potencial não aparece em nenhuma estatística, o BC olha para os sintomas. O desemprego está no mínimo histórico, de 5,4% no trimestre encerrado em julho, com ajuste sazonal (a metodologia está em como o IBGE mede o desemprego). O uso da capacidade instalada da indústria ficou em 82,9% em agosto, acima da média histórica de cerca de 80%.
Há sinais de desaceleração, mas ainda sem folga. A criação líquida de vagas formais recuou de uma média mensal de 86 mil no trimestre até abril para 52 mil no trimestre até julho. É menos, mas ainda supera o crescimento da população em idade de trabalhar. Ou seja, o mercado de trabalho segue ficando mais apertado, só que mais devagar.
Como o hiato vira inflação
O canal principal é o mercado de trabalho. Com pouca gente disponível, empresas disputam trabalhadores e pagam mais. Nos serviços, em que salário é a maior parte do custo, isso chega rápido ao preço. Por isso o BC descreve a inflação de serviços como a mais sensível ao hiato e a mais lenta para ceder.
O segundo canal é a margem. Com demanda acima da capacidade, as empresas repassam aumentos de custo sem perder clientes. Esse repasse é o que transforma um choque passageiro, como a alta do petróleo, em inflação persistente. Quanto mais positivo o hiato, maior o risco desses efeitos de segunda ordem.
Onde entra a Selic
O juro é a ferramenta do BC para mexer no hiato. Selic alta encarece crédito, estimula poupança e adia investimento. A demanda cresce menos que o potencial, o hiato fecha e, com defasagem de vários trimestres, a inflação cede. É por isso que o Copom mira o horizonte relevante, e não o mês seguinte.
No cenário do BC, o hiato passa a negativo ao longo de 2027 e chega a -0,4% no primeiro trimestre de 2028, e o relatório atribui às “condições monetárias restritivas” papel fundamental nesse movimento. Traduzindo: a projeção de inflação de 3,2% para aquele trimestre depende de a economia ficar abaixo do potencial. Se o hiato não fechar, a conta de juros muda.
O paradoxo: PIB desacelera, hiato continua positivo
O BC cortou a projeção do PIB de 2026 para 1,8%, e o hiato continua positivo. Não há contradição. O hiato mede nível, não velocidade. Uma economia que está acima do potencial e cresce um pouco menos que ele reduz o hiato devagar, sem eliminá-lo de imediato.
Um exemplo hipotético, só para ilustrar: se o potencial crescer 2% ao ano e o PIB efetivo crescer 1,8%, o hiato encolhe cerca de 0,2 ponto em um ano. O BC não publica um valor único para o potencial, mas a lógica explica por que desaceleração não é sinônimo de folga.
O que isso significa para você
Para quem investe, o hiato é o elo entre os dados de atividade e a Selic. Desemprego subindo, uso da capacidade caindo e geração de vagas perdendo força são os sinais de que o hiato está fechando, e de que há espaço para juro menor. O contrário significa juro alto por mais tempo.
Não é preciso rodar modelo. Basta acompanhar a PNAD, o Caged e o IBC-Br, e ler o hiato publicado a cada trimestre no Relatório de Política Monetária. Mudanças nessa estimativa costumam anteceder mudanças no tom do Copom.
Conteúdo informativo, sem recomendação de investimento. Estimativas de hiato do produto são incertas e revisadas com frequência.
Perguntas frequentes
O que é hiato do produto?
É a diferença percentual entre o PIB efetivo e o PIB potencial, que é o máximo que a economia consegue produzir sem acelerar a inflação. Hiato positivo indica economia aquecida; negativo indica folga.
Qual é o hiato do produto do Brasil hoje?
No Relatório de Política Monetária de setembro de 2026, o Banco Central estimou o hiato em +0,5% no segundo trimestre e +0,4% no terceiro trimestre, com projeção de -0,4% no primeiro trimestre de 2028.
Por que o hiato do produto afeta a inflação?
Porque, com a economia acima do potencial, as empresas disputam trabalhadores e conseguem repassar custos. Isso pressiona salários e preços, sobretudo nos serviços.
Como o Banco Central calcula o PIB potencial?
O PIB potencial não é observável. O BC combina filtros estatísticos, modelos macroeconômicos e julgamento do Copom, usando dados como PIB, uso da capacidade, desemprego e emprego formal.
O que o hiato do produto tem a ver com a Selic?
O juro é a ferramenta para fechar o hiato. Selic alta reduz a demanda e leva a economia para baixo do potencial, o que ajuda a inflação a cair. Hiato positivo tende a manter os juros altos por mais tempo.



