Quando o Banco Central diz que projeta inflação de 5,2% em 2026, ele não está adivinhando. Está rodando modelos com hipóteses declaradas: câmbio inicial de R$ 5,15, trajetória de juros do Boletim Focus e petróleo partindo de US$ 90 o barril. Esse conjunto se chama cenário de referência, e ler as hipóteses vale mais que decorar o número.
O cenário de referência é o conjunto de hipóteses que o Banco Central usa para projetar a inflação. No Copom de setembro e no Relatório de Política Monetária de 24 de setembro de 2026, ele parte de câmbio de R$ 5,15 corrigido pela paridade do poder de compra, da trajetória de Selic do Focus e de Brent a US$ 90, com alta de 2% ao ano no longo prazo. Mudar uma hipótese muda a projeção.
Principais pontos
- O cenário de referência é a combinação de hipóteses usada nas projeções de inflação do BC.
- Em setembro de 2026, o câmbio parte de R$ 5,15 e segue a paridade do poder de compra.
- A Selic segue o Focus coletado antes do Copom: 13,75% no fim de 2026, 12,00% em 2027 e 10,50% em 2028.
- O Brent parte de US$ 90, cai a cerca de US$ 84 em meados de 2027 e depois sobe 2% ao ano.
- Com essas hipóteses, o IPCA projetado é de 5,2% em 2026 e 3,2% no primeiro trimestre de 2028.
Por que um banco central precisa de hipóteses
Porque inflação futura depende de variáveis que ninguém conhece: dólar, barril, juros daqui a dois anos. Sem fixar esses valores, não há projeção possível.
A solução é declarar as hipóteses em vez de escondê-las, e fixá-las por regras publicadas, não por opinião. Isso torna a projeção verificável: quem discorda do número pode apontar em qual premissa discorda. O próprio BC admite, no Relatório de Política Monetária de 24 de setembro, que esses condicionamentos “não necessariamente refletem o cenário mais provável avaliado pelo Comitê”.
A hipótese de câmbio
O ponto de partida é a média do dólar nos dez dias úteis anteriores à semana do Copom, arredondada em intervalos de cinco centavos. Em setembro, deu R$ 5,15, cerca de 1% acima dos R$ 5,10 usados em junho. Daí em diante, o câmbio segue a paridade do poder de compra: o real perde valor na diferença entre a meta brasileira, de 3%, e uma inflação externa de 2%, ou seja, cerca de 1% ao ano.
É a hipótese mais sensível, porque o câmbio chega aos preços por combustível, alimentos, insumos e eletrônicos. Se o dólar ficar abaixo de R$ 5,15, a inflação projetada tende a estar superestimada; se disparar, subestimada. O mecanismo está em o que o dólar mais barato muda no seu bolso.
| Hipótese | O que o BC assumiu (setembro de 2026) | Risco se errar |
|---|---|---|
| Câmbio | R$ 5,15 inicial, evoluindo pela paridade do poder de compra | Alto: combustíveis, alimentos e insumos |
| Juros | Focus pré-Copom: 13,75% (2026), 12,00% (2027), 10,50% (2028) | Alto: define o aperto embutido na conta |
| Petróleo | Brent de US$ 90, pico no 4º tri, cerca de US$ 84 em meados de 2027, depois +2% ao ano | Médio: transporte e cadeia produtiva |
| Juro neutro | 5,00% real | Médio: mede quão apertada a Selic está |
| Energia | Bandeira amarela até o fim de 2026 | Baixo a médio: conta de luz |
A hipótese de juros e o detalhe que quase ninguém nota
O Banco Central não projeta a inflação supondo a Selic parada. Ele usa a mediana do Focus do último dia útil da semana anterior à reunião, a pesquisa com data de 11 de setembro, divulgada no dia 14. Nela, a Selic terminava 2026 em 13,75%, caía a 12,00% em 2027, 10,50% em 2028 e 10,00% em 2029.
A consequência lógica é forte: a projeção de 3,2% para o primeiro trimestre de 2028 já embute esses cortes. Se o comitê cortar mais rápido, a inflação projetada sobe. E o mercado já se moveu depois da data de corte: o Focus de 21 de setembro passou a ver Selic de 13,50% no fim do ano, um corte a mais do que o cenário do BC considera.
A hipótese de petróleo
A regra é seguir aproximadamente a curva futura, os preços já negociados para entrega nos meses à frente, por seis meses, e depois supor alta de 2% ao ano. Em setembro, o Brent parte de US$ 90, a média do terceiro trimestre, tem pico no quarto trimestre, cai a cerca de US$ 84 no segundo trimestre de 2027 e só então volta a subir.
É uma hipótese conservadora de propósito, mas frágil num ano como 2026. O barril passou de US$ 108 em setembro e depois recuou para a casa dos US$ 100, ainda acima da média usada. Curva futura não antecipa choque. O cenário também inclui a subvenção ao diesel de maio e o corte de tributos da gasolina, mas não a nova subvenção de R$ 1 por litro do diesel, sem ato formal até a data de corte.
O que o relatório mostra além do cenário de referência
O RPM de setembro não publicou cenários alternativos com números para câmbio ou petróleo. Em vez disso, trouxe o leque de probabilidades em torno da projeção: 90% de chance de o IPCA passar do teto de 4,5% em 2026, 33% em 2027 e 16% em 2028. O BC diz ainda que avalia internamente cenários com diferentes valores para o juro neutro e para o hiato do produto.
Essa é a parte mais útil e menos lida. O leque mostra a incerteza da projeção: um 3,2% com 16% de chance de estourar o teto é um número bem menos firme do que parece na manchete. E a “assimetria altista” do Copom diz para que lado o erro é mais provável.
Como usar isso na prática
Compare cada premissa com o mercado atual. O dólar fechou a R$ 5,10 na terça-feira (22), abaixo dos R$ 5,15 da hipótese: viés de baixa para a inflação. O petróleo acima de US$ 90 e a Selic esperada mais baixa puxam para o lado oposto.
O cruzamento não substitui um modelo, mas diz se a projeção oficial está otimista ou pessimista frente ao mercado de agora. As cotações atualizadas estão em dólar hoje e em indicadores.
A honestidade embutida no método
O cenário de referência não é previsão, promessa nem compromisso. É o resultado de modelos alimentados por premissas explícitas, publicadas para que qualquer um possa contestá-las. Por isso rende mais lido junto com o balanço de riscos.
Quem lê a ata ou o RPM procurando adivinhação usa o documento errado. O valor está no raciocínio, e é por isso que a distância entre a projeção do Copom e a do mercado, discutida em horizonte relevante, informa mais que qualquer um dos dois números isolados.
Conteúdo informativo, sem recomendação de investimento. Projeções condicionadas a hipóteses não representam compromisso de resultado.
Perguntas frequentes
O que é o cenário de referência do Banco Central?
É o conjunto de hipóteses, como câmbio, trajetória da Selic e preço do petróleo, usado para gerar a projeção de inflação apresentada no comunicado, na ata do Copom e no Relatório de Política Monetária.
Quais hipóteses o Banco Central usou em setembro de 2026?
Câmbio inicial de R$ 5,15 corrigido pela paridade do poder de compra, Selic do Focus com 13,75% no fim de 2026 e 12,00% em 2027, Brent partindo de US$ 90 e juro neutro de 5%.
A projeção de inflação do BC supõe a Selic parada?
Não. O cenário usa a trajetória de juros esperada pelo mercado no Focus, o que significa que a projeção já embute os cortes previstos. Se o Copom cortar mais rápido, a inflação projetada tende a subir.
Por que o Banco Central publica as hipóteses?
Para tornar a projeção verificável. Com as premissas declaradas e fixadas por regras, quem discorda do resultado pode apontar exatamente em qual hipótese discorda.
Como um investidor pode usar essas hipóteses?
Comparando cada premissa com o mercado atual. Se o dólar estiver consistentemente abaixo de R$ 5,15, há viés de baixa para a inflação; se o petróleo estiver acima de US$ 90, o viés é de alta.



