Há um trecho na ata do Copom de 22 de setembro que parece jargão e é, na verdade, a explicação mais direta de por que a Selic não cai mais rápido: “em um ambiente de expectativas desancoradas, como é o caso do atual, exige-se uma restrição monetária maior e por mais tempo”. Traduzindo: quando ninguém acredita na meta, o juro precisa ser mais alto, e o motivo é o mesmo que faz preço subir sozinho.
Expectativas desancoradas ocorrem quando empresas, trabalhadores e investidores deixam de acreditar que a inflação voltará à meta e passam a formar preços e salários com base em um número maior. A inflação fica mais persistente, e o banco central precisa de juro mais alto por mais tempo. No Brasil, a meta é de 3%, e o Focus de 21 de setembro de 2026 projeta 4,30% para 2027 e 3,80% para 2028.
Principais pontos
- Expectativa ancorada é quando o mercado projeta inflação igual ou próxima da meta nos anos mais distantes.
- Desancorada é quando as projeções de dois ou três anos à frente se descolam da meta de forma persistente.
- Expectativa desancorada entra em contrato, salário e reajuste, e vira inflação de fato.
- No Focus de 21 de setembro de 2026, a projeção para 2028 está em 3,80% e a de 2029 em 3,50%, acima da meta de 3%.
- Reancorar exige juro mais alto e por mais tempo, com custo maior sobre a atividade.
O que significa “âncora”
A metáfora vale ser levada a sério. A meta de inflação funciona como âncora quando as pessoas acreditam nela: ao decidir um reajuste, um contrato ou um salário, olham para a meta e usam aquele número como referência.
Enquanto a âncora segura, ela faz metade do trabalho do banco central sozinha. Se todo mundo forma preços supondo 3% de inflação, a inflação tende a ficar perto de 3%, porque inflação é, em boa medida, a soma das decisões de preço de milhões de agentes. A âncora é uma profecia autorrealizável na direção certa.
O que acontece quando ela solta
O mesmo mecanismo passa a operar ao contrário. Se as projeções apontam 4% e não 3%, o reajuste do aluguel é pensado com 4%, a negociação salarial parte de 4%, o contrato de fornecimento embute 4%.
E aí a inflação sai perto de 4%, não porque houve um choque novo, mas porque todo mundo agiu supondo que sairia. É por isso que economistas tratam desancoragem como um problema diferente de um choque de preço: choque passa; expectativa desancorada se reproduz. O Banco Central acrescenta outro efeito, no relatório de 24 de setembro: expectativas soltas tornam a inflação mais sensível a choques de curto prazo e aumentam o repasse do câmbio para os preços.
| Expectativa ancorada | Expectativa desancorada | |
|---|---|---|
| Projeções de longo prazo | Próximas da meta | Persistentemente acima |
| Formação de preços | Usa a meta como referência | Usa a projeção própria |
| Efeito de um choque | Temporário | Tende a se perpetuar |
| Juro necessário | Menor | Maior e por mais tempo |
Como se mede desancoragem
No Brasil, o instrumento principal é o Boletim Focus, pesquisa semanal do Banco Central com cerca de cem instituições. O Copom também olha as expectativas embutidas em títulos públicos e a pesquisa Firmus, feita com empresas.
O sinal de alerta não é uma projeção acima da meta no ano corrente, o que acontece depois de qualquer choque. O BC diz que avalia a desancoragem “a partir de dois ou três anos à frente”, justamente para limpar o efeito de choques de curto prazo. Quando o mercado projeta inflação acima do alvo em 2028 e 2029, está dizendo que não acredita na convergência.
Onde o Brasil está hoje
A meta é de 3%, com tolerância de 1,5 ponto para mais ou para menos. O Focus de 21 de setembro projeta 4,92% para 2026, 4,30% para 2027, 3,80% para 2028 e 3,50% para 2029. Nenhum ano do horizonte está no centro da meta.
O detalhe mais revelador está na direção. Segundo o Relatório de Política Monetária, entre junho e setembro a expectativa para 2026 caiu de 5,30% para 4,90%, mas a de 2027 subiu de 4,10% para 4,30% e a de 2028, de 3,69% para 3,80%. A inflação de curto prazo melhorou, e a de longo prazo piorou. É isso que o BC chama de “desancoragem adicional”. O próprio Copom projeta 3,2% para o primeiro trimestre de 2028, o horizonte relevante, ainda acima do centro.
Por que a resposta é juro maior, e não só mais tempo
Porque, para desfazer uma expectativa alta, o banco central precisa produzir um resultado que a contrarie, ou seja, inflação efetivamente menor do que se esperava, e sustentá-lo tempo suficiente para que as pessoas revisem o número que carregam na cabeça.
Isso custa mais caro que combater um choque comum. Exige manter a economia mais fria por mais tempo, com efeito sobre emprego e atividade. Na ata, o Copom resume o trade-off: o “custo de desinflação” é maior quando as expectativas estão desancoradas. Mesmo com a Selic cortada para 13,75% em 16 de setembro, o BC calcula que o juro real fica acima do neutro, estimado em 5%, em todo o horizonte de projeção. O tom da ata está em o que a ata sinalizou para novembro.
Como isso chega ao seu bolso
Por dois caminhos. O primeiro é o juro: desancoragem significa Selic alta por mais tempo, o que encarece financiamento, cartão e crédito, e mantém elevado o rendimento da renda fixa.
O segundo é o contrato. Reajustes indexados ao IPCA, como aluguel, plano de saúde e mensalidade, sobem conforme a inflação efetiva, não conforme a meta. Em ambiente desancorado, o custo de vida sobe mais que o planejado e o salário costuma correr atrás. Quem vive de renda fixa ganha nominalmente mais, mas não necessariamente em poder de compra, como mostra a conta em juro real com a Selic a 13,75%.
O que observar para saber se está reancorando
Um indicador simples e público: a projeção do Focus para 2028 e 2029. Se esses números começarem a cair em direção a 3%, a âncora está sendo recuperada, e isso abre espaço para juro menor sem custo inflacionário.
Se ficarem parados acima da meta mesmo com a inflação corrente cedendo, como aconteceu no último trimestre, a desancoragem persiste e o Copom terá de manter a restrição. Vale acompanhar esse número toda segunda-feira: ele diz mais sobre o rumo dos juros do que qualquer declaração isolada. Os dados ficam em indicadores e mais termos no glossário.
Conteúdo informativo, sem recomendação de investimento. Projeções de mercado mudam semanalmente e não são garantia de resultado.
Perguntas frequentes
O que são expectativas desancoradas?
É quando empresas, trabalhadores e investidores deixam de acreditar que a inflação voltará à meta e passam a formar preços, contratos e salários com base em um número maior, tornando a inflação mais persistente.
Como o Banco Central mede as expectativas?
Principalmente pelo Boletim Focus, pesquisa semanal com cerca de cem instituições, além de preços de títulos e da pesquisa Firmus com empresas. O sinal de desancoragem é a projeção seguir acima da meta dois ou três anos à frente.
Por que expectativa desancorada exige juro mais alto?
Porque o banco central precisa produzir uma inflação menor do que a esperada e sustentá-la até que as pessoas revisem suas projeções. Isso exige manter a economia mais fria por mais tempo.
As expectativas estão desancoradas no Brasil?
Sim, segundo o Copom. O Focus de 21 de setembro de 2026 projeta 4,30% para 2027, 3,80% para 2028 e 3,50% para 2029, todos acima da meta de 3%. A projeção de 2028 subiu desde junho.
O que muda no meu bolso com expectativas desancoradas?
Juros altos por mais tempo, o que encarece crédito e mantém elevado o rendimento da renda fixa, e reajustes maiores em contratos indexados ao IPCA, como aluguel, plano de saúde e mensalidade escolar.



