A proposta chega assim: “seu salário é R$ 10 mil como CLT, mas como PJ eu pago R$ 12 mil”. Parece aumento de 20%. Não é. Um salário de R$ 10 mil tem valor econômico anual de cerca de R$ 154.800 — o equivalente a R$ 12.900 por mês. E aí começam os custos que o PJ paga sozinho.
Comparar CLT e PJ exige converter o pacote celetista em valor mensal equivalente. Um salário de R$ 10 mil gera cerca de R$ 154.800 por ano somando salário, 13º, férias com um terço e FGTS — o equivalente a R$ 12.900 mensais. Sobre o faturamento de um PJ incidem Simples Nacional, contador e INSS próprio, além da ausência de FGTS, férias remuneradas e seguro-desemprego.
Principais pontos
- Um salário CLT de R$ 10 mil equivale a cerca de R$ 12.900 por mês em valor econômico.
- A conta inclui 13º salário, férias com um terço constitucional e 8% de FGTS.
- Como PJ, incide Simples Nacional a partir de 6% no Anexo III ou 15,5% no Anexo V.
- O PJ paga contador, o próprio INSS e não tem FGTS, férias remuneradas nem seguro-desemprego.
- O Fator R permite migrar do Anexo V para o III quando a folha atinge 28% da receita.
O erro de comparar salário com faturamento
Todo mundo que já recebeu proposta de PJ cometeu esse erro: comparar o salário bruto CLT com o faturamento oferecido como PJ. São grandezas diferentes, e a comparação sempre favorece o PJ artificialmente.
O salário CLT vem acompanhado de direitos com valor monetário que o faturamento não tem. Para comparar, é preciso primeiro converter o pacote celetista em valor mensal equivalente — e só então descontar, do lado PJ, os custos que a empresa deixa de pagar.
Quanto vale de verdade um salário de R$ 10 mil
Faça a conta anual. São 12 salários de R$ 10 mil, mais 13º de R$ 10 mil, mais férias com o terço constitucional, que somam R$ 13.333. Subtotal: R$ 143.333.
Some o FGTS de 8% sobre tudo isso: cerca de R$ 11.467 por ano. Total: aproximadamente R$ 154.800 anuais, ou R$ 12.900 por mês. Ou seja: a proposta de R$ 12 mil como PJ é, em valor econômico, menor que o CLT de R$ 10 mil — antes de qualquer imposto. O cálculo das férias está detalhado em como calcular as férias e o terço.
| Componente do pacote CLT | Valor anual |
|---|---|
| 12 salários de R$ 10.000 | R$ 120.000 |
| 13º salário | R$ 10.000 |
| Férias + 1/3 constitucional | R$ 13.333 |
| Subtotal | R$ 143.333 |
| FGTS (8%) | R$ 11.467 |
| Valor econômico total | R$ 154.800 |
| Equivalente mensal | R$ 12.900 |
Os custos que o PJ paga sozinho
Suponha que você conseguiu R$ 12.900 por mês como PJ, faturando R$ 154.800 no ano — valor que fica na primeira faixa do Simples Nacional, até R$ 180 mil.
No Anexo III, a alíquota inicial é de 6%: cerca de R$ 774 por mês. No Anexo V, começa em 15,5%: cerca de R$ 2.000 por mês. Some contador, algo entre R$ 300 e R$ 600 mensais, e o INSS sobre pró-labore — 11% sobre o valor retirado, limitado ao teto. Retirando o mínimo de R$ 1.621, são cerca de R$ 178. Qual anexo se aplica depende da atividade, e é a variável que mais muda o resultado.
O Fator R é a variável decisiva
Vale conhecer, porque é a diferença entre 6% e 15,5%. O Fator R é a relação entre a folha de pagamento — incluindo pró-labore e encargos — e a receita bruta dos últimos doze meses.
Se essa relação atinge 28%, atividades que estariam no Anexo V migram para o Anexo III, com alíquota muito menor. Na prática, isso cria um incentivo: aumentar o pró-labore para cruzar os 28% pode reduzir o imposto total, mesmo pagando mais INSS. É uma conta que precisa ser feita caso a caso, com contador — e é o principal motivo pelo qual dois PJs com o mesmo faturamento pagam impostos muito diferentes.
O que não tem preço na tabela
Além do dinheiro, há direitos que somem. O FGTS deixa de ser depositado, e com ele a multa de 40% em demissão sem justa causa — que num contrato de cinco anos representa dezenas de milhares de reais. O seguro-desemprego não existe para PJ.
Somam-se férias remuneradas — o PJ pode tirar férias, mas não recebe por elas —, estabilidade em situações como acidente e gestação, e o aviso prévio. Contrato de prestação de serviços costuma prever rescisão com trinta dias e nada mais. O que se recebe ao ser demitido pelo regime celetista está em o que você recebe na rescisão.
Onde o PJ ganha de verdade
Para ser justo, há vantagens reais e elas não são pequenas. A principal é tributária em faixas altas de renda: um CLT de R$ 30 mil paga IRRF de 27,5% sobre a maior parte da renda, enquanto o mesmo valor faturado no Anexo III pode ficar em alíquota efetiva bem menor, especialmente com distribuição de lucros.
Há também flexibilidade — atender mais de um cliente, deduzir despesas legítimas da atividade — e controle do fluxo: quem quiser pode aportar por conta própria o equivalente ao FGTS numa aplicação que rende mais. A comparação entre pró-labore e lucros está em pró-labore ou dividendos.
O número que fecha a conta
Uma regra prática, imperfeita mas útil: para empatar com um CLT, o faturamento PJ precisa ser algo entre 1,4 e 1,6 vez o salário bruto, dependendo do anexo do Simples e de quanto você valoriza os direitos perdidos.
Aplicando ao exemplo: para empatar com R$ 10 mil CLT, o faturamento PJ deveria ficar entre R$ 14 mil e R$ 16 mil. Proposta de R$ 12 mil é, portanto, redução disfarçada de aumento — e é exatamente por isso que a migração para PJ costuma ser oferecida como se fosse vantagem para o trabalhador. Em faixas de renda muito altas, o multiplicador cai, porque o benefício tributário cresce.
O que isso significa para você
Três leituras. Sobre negociação: exija o valor equivalente, não o salário. Leve a conta dos R$ 154.800 anuais e negocie a partir dela — é um argumento aritmético, não uma opinião.
Sobre proteção: se aceitar PJ, replique por conta própria o que perdeu. Aporte mensal equivalente ao FGTS, reserva de emergência maior — porque não há seguro-desemprego — e contribuição ao INSS em valor suficiente para o benefício que você quer no futuro.
Sobre risco: contrato PJ que na prática tem subordinação, horário e exclusividade pode ser questionado como vínculo. Isso cria risco para as duas partes, e é assunto para advogado trabalhista antes de assinar — não depois.
Conteúdo informativo, sem orientação tributária, contábil ou jurídica. As simulações são ilustrativas e não consideram o IRRF do lado CLT nem benefícios como plano de saúde e vale-refeição. Alíquotas do Simples Nacional variam por anexo, atividade e faixa de receita. Consulte um contador para o seu caso.
Perguntas frequentes
Quanto vale um salário CLT de R$ 10 mil?
Cerca de R$ 154.800 por ano, somando 12 salários, 13º, férias com o terço constitucional e 8% de FGTS. Isso equivale a aproximadamente R$ 12.900 por mês em valor econômico.
Quanto preciso faturar como PJ para empatar?
Como regra prática, entre 1,4 e 1,6 vez o salário bruto, dependendo do anexo do Simples Nacional e de quanto você valoriza os direitos perdidos. Para R$ 10 mil CLT, algo entre R$ 14 mil e R$ 16 mil.
Que impostos o PJ paga?
Simples Nacional a partir de 6% no Anexo III ou 15,5% no Anexo V na primeira faixa, mais INSS de 11% sobre o pró-labore limitado ao teto, mais honorários de contador. O anexo aplicável depende da atividade.
O que é o Fator R?
É a relação entre a folha de pagamento, incluindo pró-labore, e a receita bruta dos últimos doze meses. Se atinge 28%, atividades do Anexo V migram para o Anexo III, com alíquota bem menor.
O que se perde ao sair da CLT?
FGTS e a multa de 40% na demissão sem justa causa, seguro-desemprego, férias remuneradas, 13º, estabilidade em situações como acidente e gestação, e aviso prévio nos moldes celetistas.



